O novo arco-íris (homilia)


Esta manhã, quando saí de casa para fazer umas compras para a Comunidade, ao descer as escadas, vi um céu escuro e o arco-íris a sustentá-lo. Um arco-íris forte e completo. Quando vejo um arco-íris lembro-me sempre do episódio onde ele aparece pela primeira vez na Bíblia – depois do dilúvio – e o significado que Deus lhe dá: um sinal de aliança entre Deus e os humanos. Curiosamente este é o mesmo significado para as três religiões monoteístas (judeus, cristãos e muçulmanos).
Pode parecer fora de contexto esta minha alusão ao arco-íris desta manhã, mas creio que não é de todo descabida. Porque as leituras que escutámos nesta nossa celebração falam dos mesmos temas presentes na simbologia do arco-íris: revelação, aliança, fidelidade…
Este tempo de Natal é um tempo de luz. Uma luz que brilhou no meio da noite, uma luz que é contemplada pelos pastores e adorada pelos Magos. Uma luz que se revela no nosso mundo e na nossa história. Por isso este tempo é também um tempo de revelação. Com Jesus, o Criador torna-se criatura, a eternidade entra no nosso tempo, o Imortal torna-se mortal, a glória de Deus esconde-se na carne humana de um menino chamado Jesus. Tudo isto resume-se no versículo do Evangelho que escutámos: “O Verbo fez-se carne e habitou entre nós”. E a nossa fidelidade nasce desta revelação e da aliança que somos chamados a fazer com Deus, porque Deus veio, Deus vem para nós.
Jesus é o novo arco-íris, ou seja a aliança nova e definitiva de Deus com os humanos. Aliança que exige fidelidade da nossa parte: fidelidade a Deus e fidelidade ao Evangelho.
Hoje é o último dia do ano. Mesmo que para alguns este dia seja mais um e como um dia mais, é um dia que, para nós cristãos, deve colocar-nos numa dupla atitude: de perdão e de Acção de graças. E, assim como depois do dilúvio apareceu o arco-íris, como sinal de um recomeço, de uma nova hipótese, este último dia do ano deve ter esta componente mais penitencial: reconhecermos que nem tudo neste ano de 2010 foi bem.
É também de acção de graças porque, em cada fim-de-ano, temos também muito a agradecer a Deus. Mesmo que com acidentes de percurso, a fidelidade a Deus fez-nos chegar hoje aqui para reconhecermos que de Deus vêm todas as graças, todos os dons e que nele está a nossa felicidade.
É também um dia de formularmos os nossos votos de um Bom Ano. E, para nós cristãos, o que é um ano bom? Será certamente se descobrirmos no dia-a-dia a oportunidade que Deus nos dá para nos realizarmos como indivíduos e como sociedade e de trazemos ao nosso mundo os sinais e a mensagem de Jesus através da amizade, da ajuda, do diálogo, do perdão e da felicidade.
(Imagem: Jacob Cats, Paisagem de outono com arco-íris, 1779)

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