Vidas paralelas II

Sigo com as vidas paralelas. Há o sino que é comum aos dois lados. Apesar de estar do lado da clausura, ele ouve-se em todo o mosteiro e arredores. O primeiro toque é às seis da manhã para despertar, e o último por volta das dez da noite para deitar. O som e o ritmo é sempre igual: compassado, de toada forte, a dizer-nos que devemos deixar o que estamos a fazer porque outra coisa mais impotante nos chama. Há também a comida, que é a mesma do lado de lá. Pelo menos é o que elas dizem e devemos acreditar. A mesa é frugal mas de qualidade e preparada com carinho. A sopa sempre boa, à moda do norte, sempre com um grão de arroz ou um fio de massa. Talvez um habito dos tempos de crise em que se engrossava a sopa com arroz ou massa. Certamente que não será o tipo de sopas recomendadas pelos nutricionistas, mas são do melhor, sopas fartas. Três conchas que as refeições não são só sopa. O prato principal varia entre o peixe, a carne e os ovos. Como fazem criação de galinhas já se pode imaginar a cor e o sabor dos ovos. Normalmente servidos à noite. Sempre acompanhados de salada e/ou verduras. Pode vir batata, arroz ou massa... Eu dispensei logo no primeiro dia, mesmo que pudesse ser uma falta à pobreza ou à cariade. Sexta-feira, dia de peixe ou ovos, porque às sextas não se come carne, pelo menos no mosteiro, e todo o ano. Sobremesa, fruta da época e da quinta. Sempre saborosa: uvas, peros e maçãs reinetas. Nos dias de festa um doce para dar o sentido alegre ao dia. Como é que se sabe se é dia de festa? Eu descubro por dois motivos: na véspera à noite já se reza o ofício de leituras do dia seguinte e, por isso, já sabemos se o dia seguinte tem direito a comemoração especial. Depois, ao pequeno almoço também nos é desvendado: em vez de queijo vem fiambre.
Pode-se achar tudo isto ridículo, mas a verdade é que estes pormenores é que vão trazendo a novidade à sobriedade da vida religiosa. Faz-se festa porque a Igreja está em festa, jejua-se porque, na Igreja, é dia de jejum. Não há requinte na mesa dos frades e das freiras, há pormenores que nos fazem ver a diferença no correr dos dias.
Hoje, por exemplo, é dia de festa: Santa Terezinha do Menino Jesus, que dá o nome a uma Irmã que renovou hoje os seus votos temporários. Encarreguei-me eu, hoje, de arranjar a sobremesa.
As irmãs comem do lado de lá e eu do lado de cá. Elas lêem; eu, com o meu mp3, oiço música clássica. Ouvir por ouvir prefiro Mozart ou Bach do que leituras mastigadas.
Por onde vem a comida? Por um carrinho que me é deixado à porta da entrada - neste caso saída - da clausura. Depois, tocam uma campaínha a avisar e eu levo o carro para um dos locutórios onde está a mesa posta.
Às vezes perguntam-me: não se aborrece? Respondo: Não. Também faz bem, de vez em quando, fazermos silencio na nossa vida.

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