segunda-feira, 30 de março de 2015

Missa dos artistas

Ontem, na Missa da tarde no Campo Grande, celebrou-se a primeira Missa dos Artistas. A Fé, Simplicidade e Beleza estiveram muito presentes, num domingo que nos exigia humildade e amor. Pediram-me que escrevesse um texto a distribuir no final da Missa. Dei-lhe o título "Ao serviço da Beleza" e aqui o deixo, como partilha:

Por ocasião do dia do teatro, que se celebra em cada ano no dia 27 de Março, pareceu bem a alguns actores que se comemorasse este dia, numa atitude de fé, fazendo memória dos que criaram e recriaram textos e pessoas, exprimindo-os e exprimindo-se, pelo corpo e pela voz, com o seu talento, tornando-se também eles criadores e artífices do Bem e da Verdade. E lembrar não só os actores mas os artistas.
O Papa João Paulo II, na carta que escreveu aos Artistas, fazia a ligação e a diferença entre criador e artífice, explicando que o artífice (de onde deriva artista) é aquele que “utiliza algo já existente, a que dá forma e significado” (n. 1).
Gostava de salientar três “mistérios” da vida do artista.
Há, na vida do artista, um mistério de encarnação. É, aliás, uma exigência das regras da representação: encarnar o texto, encarnar o personagem. Esta palavra “encarnação” está carregada de religiosidade. Leva-nos a Jesus e à sua entrada no nosso mundo: “e encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem”. Encarnar significa entrar na carne de alguém, no caso de Jesus, entrar na nossa carne, na nossa humanidade. O artista também entra na carne do mundo, ou lembrando António Gedeão, entra no teatro do mundo, obriga-nos a pensar a existência, o dia-a-dia e, como tantas vezes acontece, enche-nos de sentimentos, os mesmos que ele vive. O artista, utilizando algo já existente, faz encarnar no mundo, sentimentos tão comuns e, por vezes, tão esquecidos. O Papa Bento XVI no encontro com os artistas, a 21 de Novembro de 2009 no Vaticano, entregava aos artistas a missão de dar esperança e beleza ao mundo. Dizia assim o Papa: “O que pode voltar a dar entusiasmo e confiança, o que pode encorajar o ânimo humano a reencontrar o caminho, a elevar o olhar para o horizonte, a sonhar uma vida digna da sua vocação, a não ser a beleza? Vós bem sabeis, queridos artistas, que a experiência do belo, do belo autêntico, não efémero nem superficial, não é algo acessório ou secundário na busca do sentido e da felicidade, porque esta experiência não afasta da realidade, mas, ao contrário, leva a um confronto cerrado com a vida quotidiana, para o libertar da obscuridade e o transfigurar, para o tornar luminoso, belo”.
O segundo mistério é o da expressão. Um bailarino não baila para um espelho, um actor não representa para o vazio, como um pintor não pinta para si nem um músico escreve bela música para agradar aos seus ouvidos. Por natureza, o artista não é nem pode ser um egoísta. Por isso há nele o mistério da expressão: não se trata de agradar ao público mas sim da necessidade partilhar com o mundo o que sente, como sente e como o exprime. O artista não crente agradece à vida o dom do talento, a graça da inspiração e a capacidade da memória. Mas o artista que é crente, sabe a que fonte tem de agradecer tudo isto: a Deus, criador, que o dotou de tudo para que o Belo e a Beleza se elevem acima da daltonia das vidas e dos tempos. E, ainda dentro deste mistério, o artista tem a grande missão da educação. Sim, o artista educa o sentimento. O sentimento estético, claro está, mas também o sentimento humano, dos afectos, tornando-o sensível às preocupações da humanidade. O artista educa-nos e lembra-nos que “o homem não nasceu para trabalhar, nasceu para criar” (Agostinho da Silva).
O terceiro mistério é o do diálogo. Chamo-lhe diálogo mas podia chamar profecia. Diálogo não já no sentido estrito da representação mas num sentido mais amplo. O artista tem, inerente à sua vocação, o poder do diálogo. De o provocar e de o realizar. O que diz e o que representa, o que cria pela arte ou pela música é sempre expressão de um corpo que reclama o outro corpo, o diálogo.
Também no âmbito da fé se pede o diálogo. Não é um pedido de agora, embora agora, talvez, haja mais plataformas de diálogo e de encontro. Não podemos deixar de lembrar as palavras que o Concílio Vaticano II dirigiu aos artistas: “sois nossos amigos! Hoje como ontem, a Igreja tem necessidade de vós e volta-se para vós. E diz-vos pela nossa voz: não permitais que se rompa uma aliança entre todas fecunda. Não vos recuseis a colocar o vosso talento ao serviço da verdade divina. Não fecheis o vosso espírito ao sopro do Espírito Santo”.
Diálogo e profecia. Os artistas, bem como a Religião, e em especial o Cristianismo, temos o mesmo horizonte: mostrar o Transcendente. Dizia o Papa Paulo VI na célebre «Missa dos Artistas»: “O nosso ministério precisa da vossa colaboração. Porque, como sabeis, o nosso ministério é pregar e tornar acessível e compreensível, o mundo espiritual, invisível, Deus. E nesta operação, que trespassa o mundo invisível em fórmulas acessíveis, inteligíveis, vós sois mestres. É o vosso trabalho, a vossa missão; e a vossa arte é a de arrebatar do céu os seus tesouros e revesti-los de palavras, de cores, de formas, de acessibilidade”.
Neste ano de 2015 a celebração do dia do teatro coincide com a celebração de Domingo de Ramos. Numa atitude de fé e de horizontes largos fazemos memória (trazemos para o presente) os que entregaram a sua vida à arte e ao serviço do Belo, ao mesmo tempo que fazemos memória do grande acto de amor de Deus para com a humanidade: a cruz alçada sobre o calvário do mundo continua a atrair aqueles que, no caminho da vida, se deixam abraçar por ela.

Neste dia de memória e de vida, rezamos com as palavras de Madeleine Delbrêl (1904-1964):

Faz-nos viver a nossa vida,
Não como uma partida de xadrez em que tudo é calculado,
Nem como um jogo em que tudo é difícil,
Nem como um teorema que nos quebra a cabeça,
Mas como uma festa sem fim em que o teu encontro se renova,
Como um baile,
Como uma dança
Nos braços da tua graça,
Na música universal do amor.
Senhor, vem convidar-nos.