Entre ricos e pobres

O Evangelho de hoje (sexta-feira) fala-nos da parábola do rico e do pobre Lázaro. Ricos e pobres neste mundo porque, no outro, como bem ilustra o relato, a riqueza torna-se pobreza e a pobreza riqueza.
Parábola que, infelizmente não se ficou lá no tempo mas que continua presente nos nossos dias e nas nossas sociedades. Dou três exemplos actuais:
1. A parábola conta-nos que este homem rico, que se vestia de linho fino e se banqueteava, não se apercebia do pobre Lázaro, esquecido e com fome.
Morreu um sem-abrigo. Podia não ser notícia mas acabou por ser porque este sem-abrigo, igual a tantos outros espalhados pelo mundo, vivia perto do Vaticano e chamava-se Willy Herteller. Católico praticante, de missa diária, dizia que a comunhão era o seu medicamento. Ia à Missa das oito, na paróquia de Santa Ana, no Vaticano, o padre que a celebrava conhecia-o bem, falava com ele, e deu-se conta que este sem abrigo tinha deixado de ir à Missa. Foi à procura dele e não o encontrava. Tinha morrido no hospital, estava à espera que alguém fosse reconhecer o corpo para ser sepultado. E este padre, lá se moveu e foi reconhecer o corpo e este sem-abrigo foi sepultado no cemitério do Vaticano, juntamente com nobres e cardeais. Esta história não quer dizer que não adianta ser rico ou ser pobre que todos acabamos num caixão, mas sim que o outro, seja ele quem for, com nome ou alcunha, com casa ou sem-abrigo, tem que ser alvo da minha atenção. Este padre, que nada fez para dar nas vistas, fez a diferença, lutando contra a globalização da indiferença.
2. A parábola mostra a grande desigualdade entre o rico e o pobre Lázaro.
Bruxelas chamou à atenção de Espanha para o alto nível de pobreza e pelo aumento a desigualdade entre ricos e pobres. Não é novidade nem país único. Políticas sociais de austeridade em que, mesmo que se tire a todos, quem tem muito acaba por ficar com menos e quem tem pouco acaba por ficar sem nada. Também esta admoestação mostra que não é verdade que estamos todos mais pobres; afinal o fosso entre ricos e pobres é ainda mais profundo ou mais largo, dependendo do ponto de vista. Os políticos não conseguem perceber que os seres humanos não somos números e que não somos máquinas de somar ou multiplicar e muito menos máquinas de produção. Nesta ideologia do descartável, quem não produz está a mais, tira a dignidade e mata.
3. As finanças quiseram penhorar alimentos doados a uma IPSS que apoia famílias carenciadas. Isto não se passou no Vaticano nem em Espanha mas foi mesmo em Portugal. Scuts e multas por pagar levaram a este acto suicida das finanças, penhorando estes alimentos que não são da instituição mas que a instituição distribui em carrinhas por famílias carenciadas. A Presidente da Instituição, indignada e com razão faz o seguinte raciocínio: o Primeiro-ministro não pagou a Segurança Social durante tantos anos e nada se passou, até prescreveu, e a uma instituição que vive praticamente da boa vontade dos voluntários fazem isto.
Este Evangelho de hoje, lido em tempo da Quaresma, diz-nos claramente que não são as orações que santificam este tempo mas sim a atenção ao outro, o estar atento àquele que está esquecido numa prisão ou abandonado numa casa ou na cama do hospital ou aquele que precisa da minha ajuda para uma reinserção.
Neste dia faço esta pequena oração: Meu Deus, que eu não seja indiferente ao sofrimento e às necessidades do outro mas que saiba fazer a diferença. Amen.

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