A conversão de São Paulo ou nem por isso



Hoje a Igreja celebra a festa da conversão de São Paulo. Mas, se formos rigorosos não se pode dizer que são Paulo foi um convertido. Os exegetas contemporâneos fazem questão de sublinhar isto porque, de facto, Paulo não se converte a nenhuma nova religião. O que acontece, sim, é um encontro, encontro esse que transformará a sua vida.
Lembramos, hoje, esta figura decisiva – amado por uns, odiado por outros – para que se cumprisse o mandato de Jesus que se lê no final do Evangelho de São Mateus: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura”.
Paulo, a partir do momento da sua ‘conversão’, não só se torna mais um perseguido – ele que perseguia a Igreja de Jesus – mas torna-se também, e sobretudo, o homem missionário, aquele que leva a mensagem de Jesus aos gentios. De tal modo que na primeira carta que escreve aos corintos irá dizer: “ai de mim, se eu não evangelizar!” (1 Cor 9, 16).
Quero, neste dia, realçar duas dimensões da vida de são Paulo que creio poderem ajudar as duas dimensões das nossas vidas de cristãos.
A primeira é a relação de Paulo com o mundo. Pedro e Tiago que continuam em Jerusalém e arredores, Paulo, pelo contrário, dá-se conta que a novidade do Evangelho de Jesus não se pode confinar a uma terra e a um povo, o povo judeu, mas que todos podem ter acesso a Jesus. É por isso que ele percorre toda a Ásia Menor fundando comunidades, instruindo-as, fortalecendo-as, não em seu nome, não tendo-se como protagonista, mas em nome de Cristo, fortalecido pelo Espírito Santo. Ainda na carta aos Corintos, Paulo irá dizer: “Eu mesmo, quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com o prestígio da linguagem ou da sabedoria, para vos anunciar o mistério de Deus. Julguei não dever saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado. Estive no meio de vós cheio de fraqueza, de receio e de grande temor. A minha palavra e a minha pregação nada tinham dos argumentos persuasivos da sabedoria humana, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé não se baseasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus” (2, 1-5).
Paulo foi a porta por onde o cristianismo entrou no mundo ocidental. Não houve choque de culturas, não houve intolerâncias… houve inculturação; Paulo não impôs um Evangelho; Paulo propôs a Boa-Nova de Jesus Cristo. Neste dia em que terminamos a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, talvez tenhamos em São Paulo um bom modelo para o diálogo e para o respeito ecuménico e inter-religioso.
A segunda relação é a de Paulo com a Igreja. É grande e belo o amor de Paulo com a Igreja. Na carta aos Colossenses há-de usar a imagem do corpo para definir a Igreja: “É Ele (Jesus) a cabeça do Corpo, que é a Igreja” (1, 18). Para Paulo, os cristãos são o corpo de Cristo, ou um corpo em Cristo, sendo Cristo a fonte da unidade. Por isso, para Paulo, a Igreja deve ser geradora de comunhão, deve ser carismática, ou seja, a comunhão que nos une, que deve levar-nos ao serviço, ajudados pelo Espírito, e deve ser relacional, ou seja, uma Igreja-para, com um horizonte universal. Se virmos a Igreja como Paulo a viu, ou seja, como Corpo de Cristo, veremos e teremos uma Igreja mais unida, onde todos têm lugar, e também mais solidária.
Paulo foi um homem animado pelo Espírito Santo. O seu amor a Cristo, a quem perseguia, foi um amor até ao extremo. Fez-nos ver que o Amor é dom de Deus, dom do Espírito, e que se esse amor nada somos e nada temos.
Hoje não se pede pela nossa conversão. Hoje pede-se que sejamos cristãos empenhados no mundo e cristãos empenhados na Igreja. E que o Amor de Deus que é paciente, que é prestável, que não é invejoso, que tudo desculpa, tudo crê, tudo espera e tudo suporta , como Paulo escreveu (cf. 1 Cor 13, 4-7), nos ajude na nossa missão de viver e anunciar o Evangelho de Jesus Cristo.
(Beato Angélico, Iluminura de um Missal, A conversão de São Paulo, 1430)

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