Santa Priscila (Prisca)


Existe em Roma, no Aventino, perto da igreja de Santa Sabina (Cúria Geral dos Dominicanos), uma pequena igreja dedicada a Santa Priscila ou Prisca (diminutivo). A igreja está escondida, mas é das mais antigas de Roma, falamos do século II, tendo até sido construída sobre um templo dedicada a Mitra, uma deusa pagã. A que se visita hoje não é desse tempo mas muito posterior (Séc. XVII-XVIII). Escreve-se aqui desta santa porque hoje se celebra o dia da sua morte e porque, segundo a tradição cristã, esta foi a primeira mulher mártir cristã e por isso, considerada a primeira mártir do ocidente. O que se sabe dela é mais por tradição do que por dados históricos. Sabe-se que, com treze anos, terá sido baptizada pelo próprio São Pedro e era certamente conhecida por São Paulo (na carta aos Romanos [16, 3] são Paulo manda a uma saudação especial a Prisca e Áquila, seus colaboradores). Como grande parte dos primeiros cristãos de Roma, que eram perseguidos por prestarem culto a Cristo, denunciaram-na às autoridades imperiais e, porque recusou adorar os deuses pagãos, foi condenada a um dos súplicios mais comuns e divertidos para os romanos mas, ao mesmo tempo mais cruéis: ser devorada pelas feras no coliseu. O espectáculo era simples: atava-se o cristão a uma coluna, tiravam-se os animais das jaulas (normalmente tigres esfomeados) e esperava-se que estes se atirassem aos condenados para os devorarem. Só que não deu certo. Diz a tradição que o leão, ao contrário do previsto, em vez de se atirar a Prisca, mansamente se colocou aos seus pés não lhe fazendo qualquer mal. Por isso, voltaram a levá-la para a prisão e decapitaram-na. Foi sepultada numas catacumbas que acabaram por ser conhecidas pelo seu nome: catacumbas de Santa Priscila.
Pouco interesse ou nenhum terá falar da vida dos santos se não se conseguir tirar alguma coisa para a actualidade. E, antes de falar do valor do martírio - dar a vida por Cristo -, temos que ter presente a dimensão familiar que o cristianismo teve nas suas origens. O que hoje concebemos como administrações paroquiais, igrejas e conventos notáveis, era uma realidade simplesmente impossível naquele tempo e ainda hoje onde o cristinanismo é proibido. A fé celebrava-se em família. A Eucaristia celebrava-se na casa das pessoas, reunindo-se as famílias numa casa maior; a Igreja reunia-se numa casa para celebrar a sua fé. Hoje corremos o risco do contrário: a fé é vivida cada vez menos família, fora de casa, e os cristãos tornaram-se, nalguns casos, num grupo de anónimos que se juntam numa igreja para celebrar a sua fé. Mesmo os mais devotos temos de admitir que temos uma fé e uma prática "morna". Deus, fé e religião, não englobam a nossa vida, passaram a ter um dia e uma hora e um apartado próprio na nossa estrutura... E pergunto-me: terá sido por se ter deixado de celebrar missas nas casas das pessoas ou será porque nas casas se deixou de falar de Jesus?
Neste dia em que começamos uma Semana de Oração mais intensa pela Unidade dos Cristãos, que o exemplo destes nossos primeiros irmãos, e os que hoje ainda sofrem por causa de Cristo, acendam em nós o desejo de Deus e a vontade firme de o viver e testemunhar nas dificuldades do mundo e da vida.
(Retábulo da igreja de Santa Prisca, em Roma - São Pedro baptiza Prisca)

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