Os amigos

O Evangelho manda-nos rezar pelos inimigos. Mas não nos proíbe de rezar pelos amigos. E, se calhar, ainda é o melhor que podemos fazer por eles. Pelo menos para os que acreditamos que a oração é um vínculo forte de união. Porque podem-se escrever poemas e livros, procurar citações, aglomerá-los e exibi-los no Facebook (serão todos os amigos do Facebook verdadeiros amigos?)... nunca deixarão de ser só modos de dizer a amizade.
Não sei o que é um amigo. Explico-me. Não sei dizer o que é um amigo. Leio coisas e sim, acho que é isso, encontro pessoas e faço o crivo: é meu amigo, conhecido ou irmão? Para mim é tão difícil ter amigos como falar da amizade. Mas existem. Muitos ou poucos, eles existem. Às vezes não os tratamos como eles quereriam ou mereceriam. Às vezes há turbulências, afastamentos, mas eles continuam por ali, mesmo que aparentemente distantes e calados. São os que aguentam os nossos risos e as nossas lágrimas, os que gastam tempo em ouvir-nos ou em aturar os nossos maus feitios, os que nos dizem força ou calma...

Ontem terminei a leitura do livro de Tolentino Mendonça, Um Deus que dança. Uma colecção de orações, que talvez devessem ser lidas homeopaticamente, e não como eu, de uma vez só. A penúltima oração é pelos amigos: "os amigos que me deste". Tolentino Mendonça, para mim, tem o grande dom de dizer na nossa linguagem o que é difícil de dizer. Aqui deixo a oração pelos amigos. Pelos meus e pelos de quem serei talvez sem saber: "Obrigado, Senhor, pelos amigos que nos deste. Os amigos que nos fazem sentir amados sem porquê. Que têm o jeito especial de nos fazer sorrir. Que sabem tudo de nós, perguntando pouco. Que conhecem o segredo das pequenas coisas que nos deixam felizes. Obrigado, Senhor, por essas e esses, sem os quais, caminhar pela vida não seria o mesmo. Que nos aguentam quando o mundo parece um sítio incerto. Que nos incitam à coragem só com a sua presença. Que nos surpreendem, de propósito, porque acham mal tanta rotina. Que nos dão a ver um outro lado das coisas, um lado fantástico, diga-se.
Obrigado pelos amigos incondicionais. Que discordam de nós permanecendo connosco. Que esperam o tempo que for preciso. Que perdoam antes das desculpas. Essas e esses são os irmãos que escolhemos. Os que colocas a nosso lado para nos devolverem a luz aérea da alegria. Os que trazem, até nós, o imprevisível do teu coração, Senhor"
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(imagem: ícone egípcio, do séc. VI. Cristo com São Menas, mais conhecido como ícone da amizade. Não serão os amigos sacramento de Cristo?)

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