Um funeral

Venho do funeral do Simão Pedro. Continuo a dizer que as palavras são poucas ou estão a mais. Emocionado, celebrei a Missa e fiz o acompanhamento para o cemiério.
Aqui deixo a homilia que escrevi e a quem dedico, bem como a todos os que conviveram com o Simão e hoje marcaram a sua presença. (Para ouvir os trechos musicais de que se fala na homilia clique nas palavras sublinhadas. Se pedir para abrir num novo separador não perde esta página).
Ontem de manhã, depois de ter estado com o Simão, pus-me a ouvir a paixão de São Mateus, musicada por Bach. Foi de propósito que a escolhi pelo seu início, ao mesmo tempo doloroso e calmo. E a paixão começa com uma entrada do coro que diz: "Vinde, ajudai-me a chorar... Olhai! Quem? O Esposo. Olhai-o! Como? Como um cordeiro. Olhai! O quê? O amor paciente".
Pus-me a escrever - estou a preparar um retiro - e de um livro tirei esta citação: “a fé dá-nos respostas quando a razão falha”.
Foi neste entretanto que soube da morte do Simão.
Meus queridos amigos, meus e do Simão, esta nossa celebração só pode ser compreendida à luz da fé porque a razão não aceita nem explica o porquê da morte de uma criança. E eu também não a consigo explicar. Qualquer explicação que tentemos dar não vai conseguir parar as nossas lágrimas e a nossa tristeza.
Posso dizer, isso sim, que muitas vezes, diante do sofrimento e da morte, nós, adultos, comportamo-nos como crianças: o medo, o desespero, o desistir de viver. Mas o Simão viveu este ano de luta como um adulto: nunca pensou na derrota da morte, manteve sempre a esperança, viveu até ao fim.
Sabemos pelos Evangelhos que Jesus gostava de conviver com as crianças, divertia-se com elas. Aliás, num dos relatos, chega até a apresentá-las como modelos para o cristão. No evangelho desta missa escutámos a proclamação das bem-aventuranças: Jesus, catequista, que nos ensina o caminho da felicidade.
Escolhi esta passagem para ser proclamada nesta nossa celebração porque há uma coisa única nas crianças e que vamos perdendo com a idade: a inocência. A inocência que cria em nós a esperança, a ilusão de que nada é para sempre. As crianças aprendem na catequese a desenvolver o espírito das bem-aventuranças que está como semente no seu coração para germinar e dar fruto.
Podemos hoje dizer que o Simão é um bem-aventurado mesmo que a semente ainda só tivesse começado a germinar. Bem-aventurado porque fez da doença um desafio, bem-aventurado porque a pureza do coração lhe deu sempre a esperança da cura, bem-aventurado porque a pobreza da sua fragilidade e da sua aparência não lhe fez perder a coragem de viver.
Meus queridos amigos, diante de uma grande tragédia, da morte de um inocente, costumamos perguntar: porquê? Eu próprio já me fiz várias vezes essa pergunta. Nunca tive resposta. Mas se olharmos para a Cruz encontramos duas possibilidades de resposta: a primeira é a do silencio. Cristo, na Cruz, um inocente que sofreu, responde-nos não com palavras mas com amor. A segunda resposta é a de procurarmos Deus no meio disto tudo. Onde está Deus? Esteve com o Simão, esteve nos pais e avós e outros familiares e amigos que lhe deram todo o carinho. Mesmo sem terem dado conta foram o rosto amoroso de Deus para o Simão. Mas agora está junto de nós, continua connosco, para nos enxugar as lágrimas, para nos dizer que a morte não é o fim mas uma passagem necessária para vermos a Deus.
Esta manhã voltei a ouvir a Paixão de São Mateus. Depois da oração de Jesus no jardim das Oliveiras há um outro
coral que diz assim: “A vontade de Deus é a melhor. Ele está disposto a ajudar os que nele têm fé. Quem confia nele não será abandonado”.
Hoje não há palavras que nos consolem. Nem palavras nem pessoas. Só mesmo Deus, com o seu silêncio, nos poderá trazer alguma consolação e alguma paz. Duas coisas temos certas: de que aqueles que Deus ama estão vivos e que hoje, no céu, há muita alegria, porque chegou lá um menino valente, de olhos muito vivos e com um grande sorriso. Derrotado? Não. Vencedor.

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