O homem do leme

O papa, além do nome que escolhe e do ofício que exerce, é ainda: Bispo de Roma, Vigário de Jesus Cristo, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, Sumo Pontífice da Igreja Universal, Primaz da Itália, Arcebispo Metropolitano da Província Romana, Soberano do Estado da Cidade do Vaticano, Servo dos Servos de Deus. Para mim chegariam o primeiro e último: o primeiro dá sentido ao lugar que ocupa e o último ao ministério que deve desempenhar.
A emoção que senti quando o vi pela primeira vez, a dois metros de distância, foi a mesma com que hoje ouvi o seu pequeno discurso em português. Não disse muito mas, para mim o essencial: que quando foi eleito disse a Deus que era um peso pesado; que sempre teve consciência que a barca não era dele nem nossa, mas de Cristo (foi o que eu disse na homilia do domingo passado!), mas que tinha consciência de que ele, ajudado por outros, era o responsável pela condução da barca; que decidiu renunciar não tendo em vista o seu bem mas o bem da Igreja, e que rezássemos pelo novo papa.
Ao longo de oito anos - para não falar dos predecessores - este foi um papa incompreendido. Mais por alguns sectores da própria Igreja do que pelo mundo, que agora até já lhe rende homenagem. Dentro da Igreja era criticado pelo que fazia e pelo que não fazia: se fazia é porque não devia fazer, se não fazia é porque devia ter feito. E assim andou este homem do leme, tentando conduzir a barca que não era dele mas que tinha responsabilidade sobre ela. Oito anos com muitos ventos contrários e más marés. Até que, passado o cabo das tormentas, e vendo terra à vista, decidiu atracar e dar o lugar a outro homem, mais novo e com mais força, para ser o novo homem do leme.
Agora vai retirar-se. Não sai da barca mas vai para um lugar discreto, onde possa recuperar, se assim se poderá dizer, do cansaço não só destes oito anos mas de toda uma vida consagrada a Deus e ao serviço da Igreja.
Creio que Bento XVI também quer uma Igreja diferente. Os sinais, as atitudes, o pouco que tem dito e o que fica por dizer, dá à Igreja uma réstea de esperança. Assim como despontam já os primeiros rebentos da Primavera, assim como já a Quaresma vai a caminho da Páscoa, assim a Igreja se prepara para um tempo novo, Deus queira, em que vejamos atitudes concretas de proximidade, humildade, acolhimento e de coragem. Que os cardeais se deixem iluminar pelo Espírito Santo para que escolham o próximo homem do leme, da barca de Cristo, que é a Igreja.
(imagem: M. Diener, a pesca milagrosa, séc XX)

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