Até onde nos leva um simples ritual

A pressa que tenho em escrever este post pode resultar em não conseguir dizer tudo o que me vai na cabeça.
Comecemos pelo assunto. Recebi um mail de Roma com a notícia de que o Papa Francisco, na próxima quinta-feira Santa, vai celebrar a Missa da Ceia do Senhor a Instituto prisional de menores. Esta notícia já foi confirmada pela Santa Sé.
A primeira coisa em que pensei foi na reacção de quem recebeu a notícia da boca do próprio Papa... Talvez a mesma de quando, na passada terça-feira, ao apresentarem quatro mitras ao Papa, desde as mais simples às mais preciosas, para ele escolher, ter dito: continuo com a minha.
Desta vez a notícia é escandalosa. Escandalosa para a própria Cúria, habituada a ter o Papa em São João de Latrão, em Quinta-feira Santa, a lavar os pés a cardeais ou a padres.
Ainda assim haverá gente a perguntar: não será isto show-off? Não será marketing concertado para dar uma ideia de igreja mais humilde e pobre? Tenho pena de quem pensar assim. Porque, na vida deste homem sempre foi assim. Aliás, na fotografia que acompanha este post, vemos o então Cardeal  Bergoglio a lavar os pés, na igreja de um bairro pobre, a pessoas pobres.
Para mim, o que é que me diz esta decisão e este gesto? Antes de mais, perceber que é o papa quem decide onde quer ir. Como Jesus, naqueles dias antes da Páscoa, em que os discípulos lhe perguntam onde é que ele quer ir celebrar a Páscoa. Como disse, o Papa troca os pés dos Cardeais, instalados na Cúria e no poder, para ir a um instituto penal, celebrar o sacramento da Caridade com aqueles que chamamos erradamente "marginais". Mais do que marginais são marginalizados.
Depois, o inesperado da decisão. Como Jesus. Naquela ceia de Páscoa, nenhum dos discípulos estava à espera deste gesto. Não fazia parte do ritual. Aliás, Jesus dará um novo sentido a cada gesto e ritual da Páscoa judaica. De tal modo que, a primeira reacção de Pedro, é recusar que o Mestre lhe lave os pés.
Terceira ideia a destacar. Não é opção de uma pessoa mas sim da Igreja. Como Jesus. Jesus não se deixou ficar pelo Templo. Entrava na casa dos pecadores, dos que a sociedade excluía, para lhes levar uma palavra de salvação e de acolhimento. Também agora, já não é só o cardeal Bergoglio a continuar a sua "tradição" de quinta-feira Santa. E não importa se é jesuita, vestido de dominicano com nome franciscano. É mais e muito mais profundo que isso: É a Igreja, que ele representa, a ir ao encontro daqueles que mais precisam de uma palavra de esperança e de proximidade. Não se convidaram os pobres, os drogados, os doentes, os presos a irem à igreja. Foi a Igreja que se convidou a ir às prisões, aos bairros de lata, aos hospitais... onde é preciso ir.
Tudo isto para dizer que temos urgentemente que voltar ao evangelho de Jesus. Certamente que em muitas catedrais e igrejas do mundo inteiro, os cardeais, bispos e padres continuarão a lavar os pés aos seus, sejam seminaristas, membros dos conselhos paroquiais ou episcopais, ou ainda leigos destacados (também há que reconhecer que muitos, discretamente, estão incondicionalmente do lado dos pobres). Mas é preciso mais humildade e realidade. Descer ainda mais ao concreto da vida, tantas vezes obscurecido, para aí levar a luz do Evangelho.
Depois do lava-pés, Jesus dá esta recomendação aos apóstolos: "Compreendeis o que vos fiz? Ora, se eu o Senhor e o Mestre vos lavei os pés, assim também vós deveis lavar os pés uns aos outros". Com esta notícia do próximo lava-pés do papa, atrevo-me a adaptar a frase de Jesus, como se o papa Francisco nos dissesse a todos: "Compreendeis esta decisão? Ora, se eu, o bispo de Roma (não gosta de usar o título de Papa) vou lavar os pés a um instituto penal de menores, assim também vós, padres, bispos e cardeais deveis ir às margens esquecidas da sociedade e aí lavar os pés, uns aos outros".
(imagem: Jesus a lavar os pés aos discípulos, Bento XVI a lavar os pés aos clérigos, Cardeal Bergoglio a lavar os pés aos pobres).

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