Onde estava o Espírito Santo?

 

Desde que o Papa Bento XVI comunicou à Igreja que ia abdicar do seu ministério, as críticas à Igreja não têm cessado. A história repete-se. Esta sede vacante já vai no segundo bloco de três em relação à Igreja: o primeiro foi o fazer o crivo entre os cardeais pecadores, indignos de participar no conclave que, se fosse esse o critério, nem Papa havia. O segundo começou na sexta-feira: o conclave. Que aquilo é só interesses, jogadas, vão-se buscar as histórias dos papas perversos para dizer que no conclave todos entram menos o Espírito Santo. O terceiro ataque virá depois de sabermos quem é o Papa: vasculhar a vida dele para ver quais são os pecados para os levar e lavar na praça pública.
Não quero com este primeiro parágrafo dizer que as críticas são mentiras, falsos testemunhos ou meras intrigas. Nem, muito menos, relativizar ou desculpar o mal que se faz. Mas o que seria de estranhar era que os anjos tivessem pecados ou fizessem jogos de interesses ou de influências nos seus conclaves... isto se tivessem de eleger um Papa angelical.
O que sim, quero dizer, é que o Espírito Santo não se impõe. Como Deus nunca se impôs, nem Jesus Cristo com a sua mensagem. Se o Espírito Santo se impusesse não precisaríamos de cardeais nem de conclaves: ele resolveria tudo sem ninguém, ou então, a haver conclave, "forçava" os cardeais a escrever o nome que ele quisesse e ficava tudo resolvido no primeiro escrutínio. Ora o Espírito Santo só pode entrar e inspirar se aqueles que acreditam estiverem dispostos a deixar-se tocar por ele. Quanto a nós, não estamos dispensados de fazer a nossa parte. E em relação ao conclave, é claro que os cardeais têm de falar, discutir, e começar a encontrar nomes concretos, não para as suas promoções ou tendo em vista as glórias futuras, mas o bem da Igreja. E votar de acordo com este princípio do bem comum, do bem da Igreja, é deixar que o Espírito Santo entre e possa fazer convergir para uma pessoa, aquele que for mais votado. Não para ser o patrão mas para ser o servidor dos irmãos.
E isto não é novidade dos conclaves. Já na Bíblia, para ficarmos só no livro dos Actos dos Apóstolos, vemos como é que os Apóstolos e os primeiros cristãos sentiam a presença do Espírito Santo nas suas decisões. Leia-se, para ilustrar, o episódio da escolha de Matias, para substituir Judas Iscariotes (1, 15-26): Os Apóstolos escolhem duas pessoas, dois nomes, invocam o Espírito Santo, depois tiram à sorte um dos nomes que é o de Matias. Discussões à parte sobre se este deveria ser ou não o método mais "evangélico" das eleições na Igreja, o que é certo é que os Apóstolos fazem a sua parte e o Espírito Santo decide, entre dois, com o método mais humano e natural que é escolher um papel de dois apresentados. Uma outra passagem, para não ficarmos só numa, e não se pensar que é excepção, é a do famoso episódio do "Concílio de Jerusalém" (15, 1-35): a Igreja tem problemas, os apóstolos e os anciãos reúnem-se, tomam a palavra para defender os seus pontos de vista e, no final das discussões, chegam a um consenso. Escrevem uma carta aos cristãos e usam esta expressão: "O Espírito Santo e nós resolvemos...". Ou seja, os Apóstolos perceberam que da discussão fez-se luz e que não foram só eles a falar: o Espírito Santo também falou, inspirando as suas palavras e decisões.
Portanto, e para concluir, para quem acredita é bom saber que o Espírito Santo está presente em momentos importantes da vida da Igreja. Não para lhe dar credibilidade, mas para garantor a assistência. E podemos todos ter a certeza que o próximo Papa, mesmo usando o título de Santo Padre, foi, é, e continuará a ser um pecador como todos e cada um de nós... Como diz São Paulo, e é o que nos pode confortar olhando vergonhosamente para os nossos pecados e para os dos outros: "Onde abundou o pecado superabundou a Graça". Bendito seja Deus que não olha aos nossos pecados mas à fé da sua Igreja.

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