Degenerar com dignidade

Para mim o mais difícil da vida não é a morte mas a degeneração. Digo degeneração e não degradação. Degenerar não tem que ser degradar. Pode-se degenerar com dignidade. É a degeneração degradante que me aflige.
É o que sinto no hospital: cada doente tem a dignidade que merece. Crente ou não crente, mais simpático ou mais resmungão. Um doente é um desafio à nossa capacidade de ir ao encontro daquele que está mais débil e que precisa de nós.
Ao ver um doente de cancro, Parkinson e até de Alzheimer - tudo doenças degenerativas - olho também para o seu contexto. Se calhar já não consegue comer por si próprio mas tem que lhe dê de comer ou beber; pode não conseguir andar pelos seus próprios pés mas ainda tem quem o leve numa cadeira de rodas a ver uma exposição ou ir ver a rua, mesmo de longe.
Acaba também de falecer uma outra senhora, com menos de cinquenta anos. Mais uma vítima de cancro. Para ela e para a família que tem fé e acredita em Jesus, a morte não é uma derrota mas uma vitória: passou aquela barreira que a separava de Deus.