Simplicidade e atenticidade no anúncio do Evangelho

Na leitura contínua do Evangelho de Marcos que temos vindo a escutar cada Domingo, aparece-nos hoje o tema da vocação: da vocação de Amós como profeta de Deus, na primeira leitura, dos Doze Apóstolos no Evangelho e da nossa vocação à santidade na Carta de São Paulo aos Efésios.
E creio que uma das conclusões que podemos tirar destas leituras é que a questão da vocação, do chamamento e até do serviço ministerial da Igreja – o estar ao serviço através do ministério ordenado – não é uma questão de direito mas sim de chamamento. Ninguém na Igreja pode dizer que tem direito à vocação. Isso poderia até tornar-se um sinal de não-vocação.
Porque, como em tudo, a iniciativa vem sempre de Deus. É Deus quem chama, é Deus quem envia. Na primeira leitura está muito presente esta perspectiva, quando Amós acaba por se defender dizendo que ele não vem de linhagem profética mas que foi Deus que o chamou a esta missão de profetizar junto do povo. E que as adversidades não o devem fazer desistir porque ele não está a defender a sua causa nem está a falar em seu nome mas sim em nome do Senhor que o escolhe e o envia para o meio do povo.
Também pelo Evangelho de Marcos se reafirma este chamamento por parte de Deus. No capítulo 3, quando se narra o chamamento dos Doze, antes da lista dos Apóstols, Marcos diz que Jesus subiu a um monte, chamou os que Ele quis e foram ter com Ele. Que estabeleceu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar, com o poder de expulsar demónios (3, 13-15). E voltamos ao princípio: a iniciativa é sempre de Deus. Ele é o grande protagonista da nossa história; é Ele quem nos chama, é Ele quem nos envia, é Ele quem nos acompanha.
Jesus envia os Doze que escolheu. Para quê? Para serem o prolongamento de Jesus no mundo e do seu Evangelho, através das palavras e das obras. Na próxima semana iremos escutar o resultado desta primeira missão Apostólica.
Deste envio vale a pena reforçar a simplicidade e a itinerância do ministério dos Doze: dois a dois, com um cajado na mão e sandálias nos pés. E a graça de Deus que é mais importante que o pão, que o alforge ou que o dinheiro.
Para fazer o quê? Pregar o arrependimento, expulsar os demónios e curar os doentes: palavras e obras que são o anúncio de um novo Reino em que a Palavra de Deus é poderosa, que converte, que cura e que salva.
Pensamos nós: estamos tão longe desta pureza evangélica. Pode até ser verdade mas o princípio continua a ser verdadeiro.
Para nós, cristãos, seguidores de Jesus Cristo, como o foram o grupo dos Doze, anunciar o Evangelho é mais do que um desafio, é uma missão: “Ai de mim se não anunciar o Evangelho”, dizia São Paulo. E é mesmo assim. Pobres de nós, se a força do Evangelho não nos consegue converter e se não o conseguimos levar pelas nossas palavras e pelos nossos gestos.
Na tarefa do anúncio do Evangelho não estamos sozinhos. Ela só será verdadeira e autêntica se for vivida em comunidade, em Igreja (por isso Jesus os envia dois-a-dois). A Igreja tem de manter, pela simplicidade, a autenticidade das palavras e dos gestos de Jesus. E dizer a Igreja é dizer cada um de nós, individual e comunitariamente: é nossa missão ultrapassa o manter um depósito de verdades. A nossa missão é partilhar uma palavra que não é nossa, é testemunhar uma pessoa que não somos nós. A nossa missão é partilhar e testemunhar Jesus Cristo.
O Papa Paulo VI, numa Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho aos homens de hoje (1975), dizia, já na parte final, que o nosso mundo tem sede de autenticidade. Que sobretudo os nossos jovens têm horror ao fictício, aquilo que é falso e que procuram, acima de tudo, a verdade e a transparência. E que isso deveria ser um desafio para nós. Porque o mundo que não crê continua a perguntar-nos: Acreditamos verdadeiramente naquilo que anunciamos? Vivemos aquilo em que acreditamos? Pregamos verdadeiramente aquilo que vivemos?
Continua o Papa: Mais do que nunca, o testemunho da vida tornou-se uma condição essencial para a eficácia profunda da pregação. Sob este ângulo, somos, até certo ponto, responsáveis pelo avanço do Evangelho que nós proclamamos.
O mundo reclama evangelizadores que lhe falem de um Deus que eles conheçam e lhes seja familiar como se eles vissem o invisível.
Ainda no seguimento deste documento, peçamos ao Senhor que nos conceda aquilo que o mundo nos pede: simplicidade de vida, espírito de oração, caridade para com todos, especialmente para com os pequeninos e os pobres, obediência e humildade, desapego de nós mesmos e renúncia para que a nossa palavra, que deve ser a Palavra de Deus, seja fecunda e dê fruto.
(Homilia deste Domingo)


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