quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Músicas e Jubileu da Ordem

Mais um dia de trabalho que chega ao fim. Em Roma os dias escurecem cedo. No fim do dia, mesmo cá em cima, ouve-se o barulho dos carros e o barulho estridente das sirenes da polícia, sempre a tentar furar pelo trânsito caótico dos romanos (para não generalizar).
Apesar deste blog mais parecer um facebook ou um twiter, não resisto a escrever aqui o trabalho deste segundo dia, que se dividiu em duas partes: de manhã sobre a música e, na parte da tarde, uma conversa agradável com o Mestre da Ordem, sempre bem disposto e pronto a escutar.
Há uma questão de fundo que está presente nesta comissão de Liturgia e que deixa apreensivo quer o Mestre da Ordem quer os próprios membros da Comissão e até outros frades, que é o movimento "tradicionalista" dentro da Ordem. Convém fazer a distinção entre conservador e tradicionalista mas, de fato, esta é uma questão presente. Por isso, qualquer passo que se dê em termos de liturgia, tem de ser cuidadoso para que a unidade da Ordem não seja perturbada por estes pequeníssimos grupos mas fortes.
O Presidente da Comissão apresentou-nos um brilhante resumo da história da Liturgia Dominicana, evolução, estudos realizados e como entendê-la nos nossos dias. Para o Mestre da Ordem é claro que depende desta Comissão apresentar à Ordem algum trabalho sobre formação litúrgica especificamente dominicana, sobretudo aos que estão em formação inicial, que são cerca de mil frades em seis mil que somos.
Como sempre, o Mestre da Ordem escuta e está pronto para perguntas. Depois de nos dizer como está apensar preparar o Jubileu da Ordem para 2016 e quantos somos na Ordem, perguntou a um frade se tinha ideia de quantos conventos existem. Eu antecipei-me à resposta dele e devolvi-lhe a pergunta: tu sabes? E ele, a rir, respondeu: nem quantos são nem onde estão!
Simpático, à despedida, despediu-se com um "muito obrigado!" em língua lusa.
Amanhã um outro dia de trabalho nos espera. Será, sobretudo, de receber frades e irmãs que trazem questões à Comissão. Nós, os recém-chegados, parecemos alunos da primária a estudar numa universidade... Temos muito que aprender.
(imagem: antífona O Lumen, dedicada a São Domingos)

A melhor vista sobre o Vaticano

Conta-se que, numa visita que o Papa João XXIII fez a este convento de Santa Sabina, levaram-no a uma parte do Convento, chamada Belvedere, que é um terraço elevado (miradouro, neste caso miratevere), com uma vista soberba sobre Roma e sobre a cúpula do Vaticano. O Papa, ao ver a cidade e apontando para a cúpula de São Pedro exclamou: "Esta é a melhor vista sobre o Vaticano. E isto é infalível!"
Esta história conta-se em Lisboa, em Paris, onde quer que seja, sempre que se fala de Santa Sabina. Ontem, ao jantar, voltou a contar-se esta história. E, no final, disse um frade inglês: pena que no vaticano se tenha perdido o sentido de humor. Gargalhada geral.
Esta é, de fato, uma das mais belas vistas sobre a cidade de Roma. Aqui ao lado, pela fechadura do portão da Ordem de Malta, pode ver-se com um binóculo lá instalado, a cúpula de São Pedro. Mas aqui é diferente: vê-se grande parte da cidade: em frente o Vaticano, à direita o monumento a Vitor Emanuel, à esquerda Trastevere e, em baixo o rio Tibre, com as suas várias pontes.
É neste terraço, portanto, que, por vezes, à noite, se vem falar ou beber um copo de limoncello. E é lá também, que os frades se reunem aos domingos e dias de festa, antes do almoço, para um aperitivo. Hoje é um dia destes. Na sala comum estava afixado o convite: dia de festa por causa dos irmãos que fizeram anos durante este mês, e despedida do Sócio do Mestre da Ordem para a África, que acabou funções (ontem foi lida a carta de assignação do novo Sócio).

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Babel em Santa Sabina

Para quem pensa que vir a Roma é vir de férias, que se engane. Posso dizer que hoje não saí literalmente de casa... ou melhor, saí para ir para a igreja, manhã cedo, para a Missa.
O dia foi passado, portanto, intra muros; entre o quarto e a sala de reuniões, igreja e refeitório. Fiz esta associação mas poderia fazer de outra maneira: quarto e refeitório e sala de reuniões e igreja.
O trabalho hoje foi o dos mais novos. Embora a comissão não seja muito grande, estamos três da comissão que acaba e três da que agora começa, hoje o trabalho foi dos que acabámos de chegar. Cada um apresentou um pequeno relatório sobre a situação das traduções das suas regiões. A mim coube-me a tradução espanhola, que vai para além da Espanha (pensemos em toda a América latina), e também a portuguesa, que inclui o Brasil.
Com a Babel instalada, a língua oficial é o italiano, que nenhum dos novos fala, resta-nos o inglês e o francês porque quem fala italiano não fala inglês. Menos mal que um dos mais velhos fala inglês e italiano e, assim, estabeleceu-se que se fala em italiano com tradução em inglês, ou vice-versa. Eu falei  em italiano (umas frases que traduzi do Google translate) e inglês (se é que se pode dizer falar), mas lá ia metendo umas palavras em francês para me explicar melhor. Mas a conclusão é óbvia: os que chegamos temos de aprender italiano, senão as coisas demoram e não avançamos.
Ao mesmo tempo, numa outra sala, está reunido o Conselho Geral, num dos seus encontros regulares. Começaram no dia 7 e só terminam amanhã. Bem mais doloroso.
E assim se passou um dia. Com alguma confusão e muitas fotocópias...
Domani sarà un nuovo giorno.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Mais uma viagem

Roma. Ancora una volta. Os aviões sempre com atrasos e sempre com desculpas. A de hoje foi o nevoeiro. E pensei: na Escandinávia devem andar todos trocados! Conclusão: saímos com uma hora de atraso.
Estou em Roma numa reunião, a primeira em que participo, da Comissão de Liturgia da Ordem. Vai ser uma semana. Deus queira que tenha uns tempos livres para passear em Roma, que se conhece andando. Agora que já descobri uns atalhos para chegar ao centro de Roma, dá para sair mais. A casa já a conheço: Santa Sabina, dos meus amores, que me faz lembrar o meu convento de Lisboa. O Aventino está para Roma como o Alto dos Moinhos está para Lisboa: calmo, um lugar de partida e de chegada. É bom sair da cidade para regressar a casa.
Com os atrasos todos e com as chegadas ao convento, davam as quatro horas na igreja de Santo Alessio; ainda me deu para ir aos sítios onde teimosamente queria ir antes de tudo: Videre Petrum. Lá me pus a pé (verifico agora que foram cerca de quatro km para cada lado) até são Pedro. Que a gente vá a Roma e não veja o Papa ainda é como o outro, pode até dar-se o caso de o Papa não estar lá, mas ir a São Pedro é um ato de união com toda a Igreja. Ver as luzes das janelas do Papa acesas, sinal que está a trabalhar, entrar na basílica de São Pedro e ver como tudo se desvela à medida que vamos andando, ver o túmulo de João Paulo II com pessoas em oração, ou o do grande João XXIII... tudo em grande, numa grande escala e de uma beleza incomparável.
Mas não fui só ver Pedro. Fui também ver São Filipe, o Apóstolo, pedir-lhe auxílio e proteção.
E regressar a  Santa Sabina. Rezar vésperas com a Comunidade, falar aos que já conheço e apresentar-me aos que também chegaram hoje. Aqui é uma autêntica Babel. Apesar de, na Ordem, termos de saber falar duas de três línguas "oficiais": francês, inglês e espanhol, a comunidade fala italiano, e cada um que se faça entender conforme conseguir. Eu digo sempre: percebo inglês, percebo francês, mas só falo espanhol. E lá vou indo. Pior está um americano, que só sabe mesmo inglês, e vai estar uma semana numa reunião em que se vai falar em francês! Pediu-me para se sentar ao meu lado, nas reuniões, para lhe ir traduzindo. Ri-me e disse-lhe num mau inglês: two blind man walking in the dark!

sábado, 26 de novembro de 2011

Sinais de Advento


Já sinto o sabor do Advento.
Ele aí vem, com a mesma esperança de sempre,
apesar do roxo que o veste.

Já oiço a voz dos profetas
que chama ao caminho da verdade
e da verdadeira conversão.

Já vejo a aurora que vem depois do entardecer
trazer a frescura do novo dia,
sinal daquele que não há-de ter fim.

Já sonho com os tempos definitivos
em que não se ouve falar de guerras
nem de desgraças
causadas por mão mãos humanas
tantas vezes carregadas de injustiça
e de desamor.

Já espero o sim da Mãe de Deus,
que é também o meu,
que consente a vinda
do desejado dos nossos corações.

Curvo-me como a planta que espera a nova madrugada
para se abrir com novo vigor
ao Deus connosco
o Emanuel.

(imagem: Salvador Dali, Será chamado profeta do Altíssimo)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Chá de beneficiência


Decorre nestes dias, no Convento dos Cardaes, um chá de beneficiência em ajuda da obra que as Dominicanas de Santa Catarina de Sena lá desenvolvem, relacionada com pessoas invisuais ou com deficiência. Quem lá vai, além do chá e da fatia de bolo caseiro, pode comprar livros, doces e biscoitos feitos lá, e que são ótimos.
Estive lá esta manhã, numa visita de médico, não por causa do chá, que só começava à tarde, mas por causa de uma papelada que tinha de entregar. Mas as Irmãs quiseram mostrar-me não só as exposições do próprio convento - obras de arte espantosas e bem cuidadas - bem como as salas de exposição com as mesas de chá colocadas no claustro.
Mas, se falo desta visita, é para aqui deixar o que vi numa das salas. Um oratório que, fechado, parecia um armário mas que, aberto, se desdobrava em beleza de imagens e de teologia. Quando se abriam as duas portas laterais, de que falarei mais adiante, via-se um tríptico, com uma imagem (estátua) da Imaculada Conceição. Nos outros dois lados, dois santos carmelitas (este convento perteceu à Ordem Carmelita), Elias e creio que São João da Cruz, não tenho a certeza.
E nas portas que abrem o oratório, as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, e para que ficassem duas a duas, a perseverança, que, não sendo virtude teologal nem cardial, é a virtude pela qual todas as outras dão fruto. E é sobre dar fruto que agora vem o que me ficou da explicação. Do lado esquerdo, em duas pinturas, temos em cima a fé e em baixo a esperança; do lado direito, também em duas pinturas, a caridade e a perseverança. Na divisão entre cada virtude está a história do crescimento de uma românzeira, em pequenos círculos ovais, com as seguintes inscrições: "quem bem profunda / melhor floresce / mais frutifica / depois alcança". Não resisiti erm escrever numa nota do telemóvel esta inscrição, muito apropriada para a vida cristã em geral, mas até como compromisso diante do Advento que nos bate à porta. A fé ajuda-nos a bem profundar, a esperança a florescer e a caridade a frutificar; a perseverança ajuda a alcançar.
Que bela catequese nesta manhã se sexta-feira e que bom propósito para quem quiser abrir a sua vida ao Senhor que vem. Marana-tha! Vem, Senhor Jesus!
(imagem: Boticelli Nossa Senhora da romã, 1487)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Um poema para a crise

Há mais de uma hora que procuro a frase certa, a quadra ou o poema, que dê corpo ao postal de Natal do Convento. De autor em autor, de antologia em antologia, vou folheando as páginas para ver se encontro alguma coisa que me agrade. A minha mentalidade, talvez antiquada, não se conforma com estes poemas modernos, que falam de árvores-de-natal chinesas ou de Natais passados em Miami. Mas também acha desajustada ir buscar às arcas encoiradas os poemas barrocos de anjos resplandecentes e Meninos Jesus em frias palhas deitados... Não encontro um meio termo. Nem o Torga me salva desta aflição. Os seus poemas de Natal são interessantes mas muito pessoais... Não tenho uma frase de Santo Agostinho ou de Santo Efrém que me resolva a preocupação. O que me apeteia mesmo era escrever na caixa do texto "Devido à crise não se encontrou um poema à altura da época que celebramos". Mas não pode ser. Sendo assim, acho que este ano vou-me ficar pela Sophia, num poema de duas linhas, que, não sendo de Natal, cumpre a função: "Deus é no dia uma palavra calma / Um sopro de amplidão e de lisura".

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O curativo

"Feliz o homem a quem Deus corrige! Não desprezes a lição do Todo-Poderoso. Ele é quem faz a ferida e quem a cura; Ele fere e cura com as suas mãos".
Ela adormeceu com um livro aberto entre as pernas, com dedo sobre esta passagem, sublinhada a vermelho, do livro de Job. O livro era o da Bíblia, ainda com escrita antiga, porque além da Bíblia ser muito antiga, a edição que tinha herdado dos pais também não era nova.
Nunca quis ter outra Bíblia. E agora, no canto da sala, sentada no cadeirão, com uma manta verde com riscas azuis sobre as pernas, ia passando grande parte das tardes. Aliás, na mesa de apoio, com tudo à mão, tinha a Bíblia, o terço, um livro de orações e umas fotografias dos entes queridos, uns ainda na terra dos vivos e outros já na terra da Verdade.
O filho aproximou-se e, ao tentar tirar o livro das mãos da mãe, acordou-a. Já várias vezes o filho tinha lido da Bíblia da mãe; sabia inclusivamente que, um dia, mais cedo ou mais tarde, o livro seria seu. Mas sempre o intrigou que a Bíblia da mãe estava quase imaculada. Em toda a Bíblia - já se tinha dado ao trabalho de a percorrer página a página - só aqueles dois versículos estavam sublinhados com um lápis de cor vermelha.
Teria sido ela? Porquê só aquela passagem? Porquê a vermelho? Eles, que falavam de tantas coisas, nunca tinham falado disso. Alguma coisa seria, pensava o filho; e alguma coisa foi, sabia a mãe.
Até que decidiu perder o pudor e perguntar diretamente porquê. A mãe olhou-o nos olhos, com um ar de ternura e de paz. Disse-lhe que há muito esperava pela pergunta; tinha até estranhado como é que ele nunca tinha avançado. Então a mãe, tirando os óculos e colocando-os em cima da mesa, pegou no terço, como se daí lhe viesse a força, e começou a contar.
Que, quase como acontece com toda a gente, Deus tinha-se tornado uma segurança para o bem e para o mal. Não daquelas seguranças de relação entre pai e filho ou marido e mulher. Aos poucos, era como que um amuleto: portei-me bem, dou-te graças, portei-me mal, defendeste-me; deixa-me continuar.
Assim tinha passado a sua adolescência e juventude, assim tinha vivido, com grande despreocupação, porque sabia que Deus, o seu protetor, ali estaria, como um pára-raios, a defendê-la.
Mas houve um dia, um dia concreto, que nunca esqueceu, que lhe mudou a vida. O mal tinha-lhe tocado.
Parecia que, de repente, ao olhar para o céu, não encontrava Deus. Que nada fazia sentido. Afinal, Deus tinha-a abandonado; ou ela é que tinha abandonado Deus. Estava confusa. Chorava. As lágrimas não eram de revolta, nem de incompreensão, nem mesmo de medo. Ela nem sabia bem porque chorava. Ou sabia, mas não era também assim tão grave que fosse para chorar. Ela que era uma mulher forte e que raramente chorava.
O marido notou-lhe nos olhos que alguma coisa se passava. Aqueles olhos tão vivos, de repente, tornaram-se num olhar vazio, distante. Perguntava-lhe o que tinha acontecido e ela respondia: nada.
Decidiu mudar de vida. Não é que fosse uma má vida... seria uma vida que não valia a pena continuar assim. Talvez até, em vez de se escrever "mudar de vida", melhor é que fique escrito, "pôr ordem na vida". E começou pelo mais simples: mudar a imagem que tinha de Deus. E propôs-se a ler a Bíblia. Não sabia como: do princípio para o fim, do fim para o princípio, ao acaso, como era moda naqueles tempos... Tinha ouvido um padre pregar, uma vez, sobre o livro de Job. Ela não tinha a prática da leitura da Bíblia. Não sabia se Job era o autor dos Salmos ou um profeta. Sabia que estava no Antigo Testamento. E o padre tinha falado de um certo homem, Job, talvez uma personagem figurativa de cada um de nós, que é provado pelo sofrimento mas que não desiste de Deus. E foi pelo livro de Job que ela começou. Ao serão, enquanto o marido deitava os filhos e rezava com eles, ela aproveitava para ir avançando na leitura, vagarosa, atenta, pouco de cada vez, e começou a perceber que do mal pode sair o bem, e de que Deus não abandona e que Deus fere e trata a ferida.
Ao ler estes versículos, meio distraída, voltou a ler. Não fazia sentido: Deus em vez de castigar, corrige? Fere mas depois trata da ferida com as suas próprias mãos, e feliz de quem se deixar tratar?
Começava a fazer sentido. De facto, Deus não castiga. Se calhar nós é que nos castigamos... E semeamos o que colhemos. E Deus protege quem quer ser protegido e acompanha quem quer a sua companhia. Sentiu necessidade de marcar aquela passagem. O seu filho mais novo tinha estado a pintar. Tinha dividido a folha em três partes. Numa parte, com muita calma pintou tudo de azul. No meio não pintou nada, ficou em branco. E na outra ponta, com muita força e à pressa, não sabemos se por ter de ir para a cama ou por qualquer outro motivo, pintou uns riscos, em várias direções, a vermelho. E ali deixou o lápis. Foi com esse lápis, mesmo sem ver a cor dele nem o desenho, que ela sublinhou aqueles dois versículos.
Os anos foram passando. Ela de facto, mudou. A maneira de ver Deus, a maneira de ver a vida, o relativizar o que é secundário e valorizar o que é verdadeiramente importante.
Agora, sentada naquela cadeira, passa os dias entre leituras de Deus ou sobre Deus. Nunca conseguiu ler a Bíblia toda, mas o livro de Job sim, como um ritual, pelo menos uma vez por ano, é lido com aquela calma e tranquilidade e novidade da primeira vez.
Depois de tudo isto contado, houve um grande silêncio. O filho queria saber que acontecimento tinha sido, mas também não queria entrar na intimidade da mãe. Mas atreveu-se a perguntar o que tinha acontecido. E ela, com a mesma calma com que tinha contado tudo até aqui, respondeu: um tropeção sem importância. Como os teus, quando eras pequeno. Tropeçavas, caías, e vinhas ter comigo a chorar e eu te fazia o curativo. Deus fez o mesmo comigo: Deus feriu-me, ou melhor, eu feri-me, mas também tratou da minha ferida.
(imagem: Willem de Poorter, uma mulher rezando)

sábado, 19 de novembro de 2011

Ao som da chuva

Desde que vim de Roma o tempo não me chega. Ok, um pouco exagerado, tavez, mas é o que sinto. Têm sido coisas atrás de coisas, com imprevistos pelo meio, o que faz com que nem tudo esteja a ir ao ritmo que precisaria e que o meu trabalho merecia.
Mas um sábado tranquilo, como há muito não tinha, está a dar para adiantar trabalho mais urgente, como a homilia de amanhã, que acabei de escrever. Ao som da chuva.
Gosto da chuva. Da janela do meu quarto vou vendo as metamorfoses do dia que começou com algum sol, foi escurecendo, e acaba de chover forte e feio, seria a expressão, mas digo forte e bonito. Porque ela veio mansinha, com o seu introito, pinga aqui, pinga ali, o vento a dar expressão e, de repente, num crescendo contínuo, cai certinha, molhando tolos e não tolos. Cai muito depressa, como se a nuvem escura que pairou sobre o convento quisesse descarregar aqui a água toda de uma vez.
Foi o som da chuva que cai, com algum ruído dos carros que passam, que me fizeram parar o que estava a escrever para aqui vir registar este momento em que parei para ver a chuva cair.

sábado, 12 de novembro de 2011

Onze do onze de dois mil e onze

Ontem, às onze horas e onze minutos do dia donze do onze do ano de dois mil e onze, estava no céu, que é como quem diz, no avião. A caminho de Roma. Dou-me conta que começa a acontecer com Roma o que já há anos tem acontecido com Fátima: ir em trabalho. E não há tempo para marcar programas extras. Vai-se com pouca antecedência, está-se na reunião e regressa-se ao final do dia ou no dia seguinte de manhã. Mesmo que por ilusão se possa pensar que a reunião acaba antes e pode-se ir à cidade eterna ver esta ou aquela igreja ou ainda a janela da sala de trabalho do Papa.
A grande alegria é que fico hospedado, pela primeira vez, em Santa Sabina. Santa Sabina é uma das mais antigas igrejas de Roma. No século XIII o papa deu-a a São Domingos, e aí viveu e daí se fez a Cúria Geral. Já tinha estado duas vezes neste Convento, mas sempre de visita, de passagem. Desta vez vai ser diferente. Vou em trabalho, uma reunião de preparação de um encontro dos provinciais dominicanos da Europa que, em 2012, será em Lisboa. Vou porque sou o Secretário do encontro. E engane-se quem ache que são títulos ou progressão na carreira... Vai ser é muito trabalho!
Esta reunião vai ser a primeira e única, para projectar a semana, desde horários, lugares, conferências... Tudo será delineado daqui a pouco e, a partir daí, já em Lisboa, montar tudo o necessário para que tudo corra da melhor maneira e Lisboa fique bem vista no acolhimento aos provinciais.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Aniversário da Dedicação da Basílica de São João de Latrão

Dizem que vir a Roma e não ver o Papa é uma grande falta, mas, vir a Roma e não me vir visitar é uma falta maior. Porque sou a mais antiga igreja de Roma e do Mundo. Com razão me chamam a "Mãe de todas as Igrejas". Antiga, bela e formosa.
Sou antiga porque sou do tempo do cristianismo livre, dos tempos de Constantino, que me mandou construir. Pedra sobre pedra, aos poucos, numa mistura de lágrimas de trabalho misturadas com as lágrimas de alegria por, finalmente, deixarem construir-me para acolher os cristãos. Os meus construtores quiseram deixar a sua marca. E mandaram escrever, na minha fronte, por cima das colunas, estes dizeres: "Por direito papal e imperial, estabeleceu-se que eu seja a Mãe e cabeça de todas as Igrejas. Quando se concluiu toda a obra, determinaram dedicar-me ao divino Salvador, dador do Reino celestial. Por nossa parte, ó Cristo, a Ti nos dirigimos com humilde súplica, e Te pedimos que, deste ilustre templo, faças a tua residência gloriosa".
Mas não é só a antiguidade e a história que me dão este estatuto. Na verdade, assim como todas as dioceses têm a sua catedral, assim Roma me tem a mim. É verdade. Apesar do meu bispo, o Papa, viver em São Pedro, aqui é que está a sua cadeira. Aliás, muita gente não sabe que Cátedra quer dizer cadeira, e que às Sés se chamam Catedrais porque lá está a cadeira do bispo que preside à diocese. É em mim que o papa, o bispo de Roma, tem a cadeira e onde vem frequentemente celebrar. Não tenho inveja das outras basílicas. Em coisas de igreja a inveja é um feio sentimento. São Pedro tem o seu papel, Santa Maria Maior e São Paulo extra-muros, também, e eu também tenho o meu papel.
Quando fui dedicada não havia ainda esta ideia de casa de reunião do povo. A conceção era outra. Eu fui dedicada a Deus e, por excelência, o lugar onde Deus habita. Como se a Deus o pudéssemos encerrar numa casa como eu, por bonita e agradável que seja. Mas é importante este sentimento de estar dedicada às coisas de Deus e não a outras.
Não tenho dúvidas de que os verdadeiros templos são aqueles que se reúnem nos templos. Cada pessoa é também dedicada a Deus, pelo batismo, assim como eu fui, naquele longínquo ano de 309.
Por isso gosto que me visitem, que entrem para ver a beleza que tenho, que me tirem fotografias mas, sobretudo que se sintam unidos a todos os cristãos do mundo. Porque isso sim represento e quero representar: a unidade. Nós, os de Cristo, devemos ser unidos.
Apesar de avançada na idade e de já muito ter vivido e recordado, cá continuo como mãe e cabeça de todas as igrejas. E firme nesta questão da unidade.
O que mais gostaria é de que, quem me visita, sentisse que a beleza interior é a mais importante. E que todos deveríamos resplandecer de beleza pela nossa fé e pelas nossas obras.
E já sabem, quando vierem a Roma venham ver-me.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Aterragem

Acabo de aterrar em Lisboa, vindo de Espanha, mais concretamente de Sevilha. Fui em trabalho, apesar de que quando de fala em viagens, se pense que se vai passear.
Em representação do Padre Provincial, dois motivos me levaram à belíssima cidade de Sevilha: a uma reunião de provinciais da Península Ibérica e à tomada de hábito de dois noviços que ali estão a fazer o seu noviciado.
A reunião, apesar de não se poder dizer muito, correu bem, quase tudo nomeações para cargos de coordenação de equipas de trabalho. Nestas coisas vem-me sempre à memória esta frase que não sei de quem é, será porventura da sabedoria popular, ou se a inventei, o que é pouco provável: quanto mais nos mostramos mais sobra para nós.
A tomada de hábito, no domingo, foi simples e emocionante. Talvez mais para mim do que para eles, mais ontem que há treze anos. É sempre o mudar de roupa e o que isso significa. Vestir o hábito deveria dizer-nos que há hábitos a mudar, os maus, claro está. Embora o hábito não faça o monge, o monge, esse sim, faz o hábito.
Encontrei portugueses: dois imãos maristas, do Pinheiro da Bemposta, que ali estão, também, a fazer o seu noviciado.
A tarde foi dedicada às devoções sevilhanas. Se de manhã apanhei na rua um Rosário da Aurora (a fotografia deste post), a tarde foi a percorrer as igrejas por onde andei e muito me dizem ainda hoje naquela cidade. Nada melhor num final de domingo que ir ver sair uma procissão, a Virgem, Rainha de todos os Santos, com a sua confraria, andor e costaleros.
E hoje cá estou, de novo, no sitio de sempre para continuar o trabalho até que venha uma próxima viagem.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O que é a vida?

O que é a vida?
A vida é a nossa participação na história.

Como as estações do ano ou como as paisagens,
a vida vai mudando e nós com ela.
Mas nós também mudamos a história.
A história era diferente antes de nós
e não será igual depois de nós.
Nós mudamos a história com a nossa vida:
as nossas acções, boas e más,
as nossas palavras,
as nossas opiniões
e as nossas decisões,
os nossos amores e os nossos ódios...
Tudo é vida, tudo é história.

Mas a vida não se cruza só com a história.
Na nossa vida temos factos e temos pessoas.

Cruzamo-nos com os outros,
que também têm as suas vidas e as suas histórias.
Como os castelos.
Pedra sobre pedra,
fortalezas, onde só entra quem deixamos,
o sítio de encontro,
o lugar da segurança,
para os que amam, o lugar do amor.

Bem situados,
normalmente nos altos das vilas ou das cidades,
de lá nós vemos quem se aproxima:
amigos que nos querem bem,
os mal intencionados,
que nos deixam assustados,
os desconhecidos que nos visitam,
os amores que vêm à procura do nosso coração...

O que é a vida?
É mostrar-se e esconder-se,
é arriscar e recuar,
observar e participar,
é duvidar e acreditar.

E é amar.
Amar tudo e todos, é certo, é cristão,
mas amar quem vive no nosso coração.
Grande castelo o nosso coração!
Amamos com mais ou menos intensidade,
com mais ou menos paixão,
mais presentes ou mais ausentes,
mas amamos os que trazemos dentro de nós.
Com esses,
muitos ou poucos, que importa?,
construímos a nossa vida de cada dia.
Porque nascemos para amar,
vivemos a amar
e morremos amados.

O que é a vida?
É o livro do qual se é o autor
e talvez o seu único leitor.
São as páginas que lemos,
escrevemos
e voltamos a ler
para ver o que ficou escrito lá atrás
e que já não nos lembramos;
são os capítulos que o ordenam,
lhe dão sentido e força,
são os outros personagens,
os que estão sempre em cena
e os que vão e vêm;
são as folhas por escrever,
desafios desconhecidos numa história em construção.

No livro da vida não há ficção.
Tudo aconteceu,
tudo é real, tal e qual,
não adianta ter vergonha.

O que é a vida?
É ler o seu próprio livro:
chorar, rir, sonhar...
E não desistir de amar.

(imagem: Alessandro Allori, Alegoria da vida humana, 1570)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Deus, pintor da vida


No céu cinzento e molhado
um arco-íris é desenhado
pelo dedo de Deus.
As cores não são as nossas;
em vez de dinheiro,
saúde, trabalho e sucesso,
Deus pinta o seu arco
com as cores da fidelidade,
da esperança, da confiança e da fé.

Deus, pintor da minha vida,
guarda-me debaixo do teu arco da aliança,
e que as cores que vejo no firmamento
me ensinem a simplicidade,
a confiança e a alegria.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Os primeiros de Novembro

Na aldeia o mês de Novembro era um mês intenso. Todos os dias havia que celebrar, fosse religioso fosse mais profano.
No dia dos Santos a aldeia respirava santidade: grande silêncio nas ruas e nas casas; os homens iam tratar do gado e as mulheres tratar do almoço. E nestes trabalhos de fazer por casa esperavam a hora da Missa, marcada pelo padre Acácio, para as dez da manhã, mais ou menos, tudo dependeria do tempo e da disposição da égua que o trazia. O animal andava cansado. Sempre carregada, os padres também pesam, e o padre Acácio tinha bom peso. A volta para dizer Missa era sempre a mesma: Missa em Pretarouca às sete, nas Dornas às oito e meia e em Feirão às dez. O padre Acácio gostava de ensaiar cânticos para a Missa. Quase sempre trazia um verso para ensaiar no fim da Missa e as raparigas cantavam bem. Depois da Missa juntava-as, cantava uma ou duas vezes o verso, mandava-as repetir e depois advertia-as que não o voltassem a cantar sem ele, não fosse o diabo tecê-las e alterarem as notas do cântico. Frequentemente se lhe ouvia dizer que melhor é aprender um verso novo do que corrigir um velho. E no domingo anterior tinha ensaiado um, muito bonito, para que se cantasse nos Santos e nos Finados. E elas lá o traziam na cabeça, lá o cantavam no monte, sozinhas, respeitando sempre as recomendações do senhor prior.
Pois, no dia dos Santos, como dizíamos, a Missa estava marcada para as dez. Há sempre três toques do sino: o primeiro perto da hora marcada, o segundo quando se via a égua com o padre a dobrar o monte das Dornas e o terceiro quando o padre subia para o altar. Era entre o segundo e o terceiro toque que todos paravam os afazeres para mudar a roupa e ir para a igreja.
O teto da igreja era bonito: tinha muitos santos. Era uma diversão para os mais pequenos: porque é que aquela tem os olhos num prato, porque é que aquele tem uma grelha na mão... enquanto o padre lá rezava a missa em latim, lá uns se distraíam com as contas, outros com os santos e outros talvez com os negócios do outono. Mas quando tocava a Sanctus tudo parava. Todos olhavam para o altar onde o padre Acácio, de costas para o povo, lá oferecia o santo sacrifício.
Como a Missa acabava para o tarde e o almoço era cedo, a tarde rendia mais. Depois de lavar a loiça e de deitar aos porcos, começava a segunda parte do dia, também ela religiosa, embora não metesse padre. Era altura de ir ao cemitério limpar as campas dos que lá estão e são da nossa família e de as enfeitar com umas florzinhas, poucas, porque flores em Novembro não as há. Normalmente eram as mulheres quem se ocupavam da limpeza das campas. Os homens, esses, ficavam por casa a arranjar as candeias para alumiar os mortos nesta noite tão especial de Novembro. Os mais endinheirados compravam umas velas com tampa e tudo, para que a chuva não as apagasse; os mais pobres usavam uma candeia velha própria para este efeito.
Mas a alegria era para os miúdos. Eles iam pedir o pão-por-Deus. Normalmente eram também os mais pobres, sendo que ricos não havia em Feirão a não ser o Morgado, que andavam de porta em porta a pedir o pão-por-Deus. E dava-se sempre alguma coisa: ou um bolo, ou uma broa, ou até uma chouriça ou feijões, servia de troca para que se rezasse pelas alminhas de quem se lá tinha. O refrão era mesmo esse: dê-me o pão-por-Deus pela alma de quem lá tem.
Como quase todos eram pobres, partilhava-se a pobreza . A pobreza e as orações. E, ao final da tarde, quando o sol chegava ao Penedo Gordo, o sino voltava a tocar. E a aldeia reunia-se toda na igreja, para rezar pelos mortos. Em primeiro lugar o terço, que já era habitual todo o ano; mas, no mês das almas, passavam-se as contas próprias desta devoção e lia-se a meditação que o livro próprio do mês trazia para cada dia. Depois os homens iam ao cemitério acender as velas ou as candeias para que iluminassem aquela noite de defuntos.
Já em casa, cada família, fosse rica ou pobre, contava o que deu ou o que recebeu, conforme o caso. E voltavam as orações por alma dos que tinham dado o pão-por-Deus.
Essa noite era uma noite fria. Mesmo com lareira, a noite era fria. Era fria porque trazia à memória as recordações do passado: o pai que morreu de repente, a mãe que morreu de coisa má, ou o bébé que morreu ao nascer ou os que a peste levou com ela. Era uma noite escura e de lágrimas.
O dia dos defuntos era de circunspeção. Antes da Missa as famílias iam ao cemitério e aí rezavam, diante das campas dos seus, um pai nosso, uma avé-maria e um credo, para ganhar as indulgências. O sacristão, esse, andava entre a sacristia e a torre do sino, para avistar o padre Acácio, quando dobrasse o monte das Dornas, e dar o segundo toque.
E a Missa era muito sentida. De paramentos pretos, a missa cantada, com muitos kyries e requiens, era um consolo. Apesar do latim, as práticas do padre Acácio falavam ao coração: da brevidade desta vida,  de rezar por quem não tem quem lhe reze um pai-nosso, e de cuidarmos da nossa vida... e quando no canon se ouvia o defuntorum nostrorum e se fazia uma pausa, todo o povo já sabia: era o momento de lembrar os nomes dos seus defuntos.
No fim da Missa, já só de estola preta, voltavam todos ao cemitério. Aí o padre Acácio rezava mais umas orações em latim e espalhava água benta pelas campas dizendo: Requiescant in pace. Amen.