O que é a vida?

O que é a vida?
A vida é a nossa participação na história.

Como as estações do ano ou como as paisagens,
a vida vai mudando e nós com ela.
Mas nós também mudamos a história.
A história era diferente antes de nós
e não será igual depois de nós.
Nós mudamos a história com a nossa vida:
as nossas acções, boas e más,
as nossas palavras,
as nossas opiniões
e as nossas decisões,
os nossos amores e os nossos ódios...
Tudo é vida, tudo é história.

Mas a vida não se cruza só com a história.
Na nossa vida temos factos e temos pessoas.

Cruzamo-nos com os outros,
que também têm as suas vidas e as suas histórias.
Como os castelos.
Pedra sobre pedra,
fortalezas, onde só entra quem deixamos,
o sítio de encontro,
o lugar da segurança,
para os que amam, o lugar do amor.

Bem situados,
normalmente nos altos das vilas ou das cidades,
de lá nós vemos quem se aproxima:
amigos que nos querem bem,
os mal intencionados,
que nos deixam assustados,
os desconhecidos que nos visitam,
os amores que vêm à procura do nosso coração...

O que é a vida?
É mostrar-se e esconder-se,
é arriscar e recuar,
observar e participar,
é duvidar e acreditar.

E é amar.
Amar tudo e todos, é certo, é cristão,
mas amar quem vive no nosso coração.
Grande castelo o nosso coração!
Amamos com mais ou menos intensidade,
com mais ou menos paixão,
mais presentes ou mais ausentes,
mas amamos os que trazemos dentro de nós.
Com esses,
muitos ou poucos, que importa?,
construímos a nossa vida de cada dia.
Porque nascemos para amar,
vivemos a amar
e morremos amados.

O que é a vida?
É o livro do qual se é o autor
e talvez o seu único leitor.
São as páginas que lemos,
escrevemos
e voltamos a ler
para ver o que ficou escrito lá atrás
e que já não nos lembramos;
são os capítulos que o ordenam,
lhe dão sentido e força,
são os outros personagens,
os que estão sempre em cena
e os que vão e vêm;
são as folhas por escrever,
desafios desconhecidos numa história em construção.

No livro da vida não há ficção.
Tudo aconteceu,
tudo é real, tal e qual,
não adianta ter vergonha.

O que é a vida?
É ler o seu próprio livro:
chorar, rir, sonhar...
E não desistir de amar.

(imagem: Alessandro Allori, Alegoria da vida humana, 1570)

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