Os primeiros de Novembro

Na aldeia o mês de Novembro era um mês intenso. Todos os dias havia que celebrar, fosse religioso fosse mais profano.
No dia dos Santos a aldeia respirava santidade: grande silêncio nas ruas e nas casas; os homens iam tratar do gado e as mulheres tratar do almoço. E nestes trabalhos de fazer por casa esperavam a hora da Missa, marcada pelo padre Acácio, para as dez da manhã, mais ou menos, tudo dependeria do tempo e da disposição da égua que o trazia. O animal andava cansado. Sempre carregada, os padres também pesam, e o padre Acácio tinha bom peso. A volta para dizer Missa era sempre a mesma: Missa em Pretarouca às sete, nas Dornas às oito e meia e em Feirão às dez. O padre Acácio gostava de ensaiar cânticos para a Missa. Quase sempre trazia um verso para ensaiar no fim da Missa e as raparigas cantavam bem. Depois da Missa juntava-as, cantava uma ou duas vezes o verso, mandava-as repetir e depois advertia-as que não o voltassem a cantar sem ele, não fosse o diabo tecê-las e alterarem as notas do cântico. Frequentemente se lhe ouvia dizer que melhor é aprender um verso novo do que corrigir um velho. E no domingo anterior tinha ensaiado um, muito bonito, para que se cantasse nos Santos e nos Finados. E elas lá o traziam na cabeça, lá o cantavam no monte, sozinhas, respeitando sempre as recomendações do senhor prior.
Pois, no dia dos Santos, como dizíamos, a Missa estava marcada para as dez. Há sempre três toques do sino: o primeiro perto da hora marcada, o segundo quando se via a égua com o padre a dobrar o monte das Dornas e o terceiro quando o padre subia para o altar. Era entre o segundo e o terceiro toque que todos paravam os afazeres para mudar a roupa e ir para a igreja.
O teto da igreja era bonito: tinha muitos santos. Era uma diversão para os mais pequenos: porque é que aquela tem os olhos num prato, porque é que aquele tem uma grelha na mão... enquanto o padre lá rezava a missa em latim, lá uns se distraíam com as contas, outros com os santos e outros talvez com os negócios do outono. Mas quando tocava a Sanctus tudo parava. Todos olhavam para o altar onde o padre Acácio, de costas para o povo, lá oferecia o santo sacrifício.
Como a Missa acabava para o tarde e o almoço era cedo, a tarde rendia mais. Depois de lavar a loiça e de deitar aos porcos, começava a segunda parte do dia, também ela religiosa, embora não metesse padre. Era altura de ir ao cemitério limpar as campas dos que lá estão e são da nossa família e de as enfeitar com umas florzinhas, poucas, porque flores em Novembro não as há. Normalmente eram as mulheres quem se ocupavam da limpeza das campas. Os homens, esses, ficavam por casa a arranjar as candeias para alumiar os mortos nesta noite tão especial de Novembro. Os mais endinheirados compravam umas velas com tampa e tudo, para que a chuva não as apagasse; os mais pobres usavam uma candeia velha própria para este efeito.
Mas a alegria era para os miúdos. Eles iam pedir o pão-por-Deus. Normalmente eram também os mais pobres, sendo que ricos não havia em Feirão a não ser o Morgado, que andavam de porta em porta a pedir o pão-por-Deus. E dava-se sempre alguma coisa: ou um bolo, ou uma broa, ou até uma chouriça ou feijões, servia de troca para que se rezasse pelas alminhas de quem se lá tinha. O refrão era mesmo esse: dê-me o pão-por-Deus pela alma de quem lá tem.
Como quase todos eram pobres, partilhava-se a pobreza . A pobreza e as orações. E, ao final da tarde, quando o sol chegava ao Penedo Gordo, o sino voltava a tocar. E a aldeia reunia-se toda na igreja, para rezar pelos mortos. Em primeiro lugar o terço, que já era habitual todo o ano; mas, no mês das almas, passavam-se as contas próprias desta devoção e lia-se a meditação que o livro próprio do mês trazia para cada dia. Depois os homens iam ao cemitério acender as velas ou as candeias para que iluminassem aquela noite de defuntos.
Já em casa, cada família, fosse rica ou pobre, contava o que deu ou o que recebeu, conforme o caso. E voltavam as orações por alma dos que tinham dado o pão-por-Deus.
Essa noite era uma noite fria. Mesmo com lareira, a noite era fria. Era fria porque trazia à memória as recordações do passado: o pai que morreu de repente, a mãe que morreu de coisa má, ou o bébé que morreu ao nascer ou os que a peste levou com ela. Era uma noite escura e de lágrimas.
O dia dos defuntos era de circunspeção. Antes da Missa as famílias iam ao cemitério e aí rezavam, diante das campas dos seus, um pai nosso, uma avé-maria e um credo, para ganhar as indulgências. O sacristão, esse, andava entre a sacristia e a torre do sino, para avistar o padre Acácio, quando dobrasse o monte das Dornas, e dar o segundo toque.
E a Missa era muito sentida. De paramentos pretos, a missa cantada, com muitos kyries e requiens, era um consolo. Apesar do latim, as práticas do padre Acácio falavam ao coração: da brevidade desta vida,  de rezar por quem não tem quem lhe reze um pai-nosso, e de cuidarmos da nossa vida... e quando no canon se ouvia o defuntorum nostrorum e se fazia uma pausa, todo o povo já sabia: era o momento de lembrar os nomes dos seus defuntos.
No fim da Missa, já só de estola preta, voltavam todos ao cemitério. Aí o padre Acácio rezava mais umas orações em latim e espalhava água benta pelas campas dizendo: Requiescant in pace. Amen.

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