A morte como regresso a casa


A Ordem Dominicana comemora hoje os seus membros falecidos. De fato, ao longo do ano lembramo-nos deles várias vezes. Nas nossas Constituições diz-se mesmo: “Os irmãos guardem uma fiel recordação dos seus predecessores na família de S. Domingos, que os ajudam «com o exemplo da sua vida, a companhia da sua amizade e com a sua intercessão». Prestem atenção às suas obras e à sua doutrina e dêem-nas a conhecer. E não faltem os sufrágios pelos irmãos defuntos”.
Das muitas celebrações que havia na tradição para com os defuntos, desde o De profundis ao menos uma vez ao dia às missas de sufrágios, comemoramos atualmente três aniversários mais gerais, que provêm do século XIII: no dia 8 de Fevereiro lembramos os pais e mães dos irmãos e irmãs da Ordem, 5 de Setembro os amigos e benfeitores da Ordem e 8 de Novembro, que hoje calha, todos os defuntos da Ordem.
Se os lembramos é exatamente para percebermos que eles não foram irrelevantes, banais, na Ordem. As leituras que ouvimos dizem-nos isso mesmo: que não foram vidas despercebidas. As leituras que se escolheram para este dia não são as das exéquias. Elas têm outro tom: de festa, descanso e de paz. O Livro do Apocalipse chama-os de vencedores, o Evangelho dá-nos a entender que eles estão na glória de Deus: “Pai, quero que onde Eu estiver estejam também comigo aqueles que Tu me confiaste, para que contemplem a minha glória, a glória que me deste”.
O grão de trigo, para dar fruto tem de apodrecer, disse Jesus. Disse-o em relação a Ele mas aplica-se a todos os que entregaram a sua vida pelos irmãos. Todos os que foram trigo, que tiveram de apodrecer, que tiveram que se entregar, para dar mais vida e dar mais fruto.
Celebrar neste dia os defuntos da Ordem é reconhecer, antes de mais, que eles foram nossos irmãos e que a história da Ordem não se faz só no presente mas é uma construção de quase oitocentos anos em que que eles foram realmente importantes não só para nós mas tiveram uma dimensão mais universal. Desde os grandes Santos, intelectuais e figuras ilustres, até aos que viveram uma vida mais discreta, mais silenciosa e que só a memória dos vivos os conserva. Todos eles acreditaram na Páscoa e por isso não chegaram ao fim mas começaram a verdadeira vida que é Cristo. Assim como ao longo da sua itinerância houve em cada dia um regressar ao convento, no final da sua vida, tendo dado a sua vida pela pregação do Evangelho, regressam ao verdadeiro convento, o lugar da comunhão e do encontro definitivo com o Deus em quem acreditaram, anunciaram e por quem deram a vida.
Dizemos que a morte é uma passagem. Dizemos isto às vezes para consolar, e por vezes dizemos esta frase sem sabermos o que estamos a dizer, que é grave, ou sem acreditarmos nela, que é pior. No entanto ela é verdadeira e importante para compreendermos à luz da fé o mistério da morte. Porque a morte é a porta necessária para a verdadeira vida. A vida terrena que nós vivemos, não tinha sentido, não seria completa se não houvesse a esperança do repouso em Deus, nossa alegria e nossa paz.
Como nos dizia Jesus no Evangelho, embora estejamos no mundo não somos do mundo; somos do céu onde toda a humanidade será outra vez reunida no grande banquete do Cordeiro. É para lá que se dirige o nosso olhar quando celebramos estes dias de defuntos. Também nós, um dia, teremos o nosso último dia de trabalho e regressaremos a casa para descansar de uma vida longa e feliz se ela foi uma vida dada, gasta ao serviço dos irmãos e do próximo.
Neste dia rezamos a Deus pelos nossos irmãos defuntos com uma oração do Ritual das Exéquias da nossa Ordem: "Ó Deus de toda a esperança, que, no vosso Filho que venceu a morte e no Espírito Santo que dá a vida ao mundo, nos libertastes dos laços da morte, acolhei na morada celeste os nossos irmãos defuntos. Vós que sois o Deus dos vivos, concedei-lhes um lugar junto de Abraão, de Isaac, de Jacob, da Virgem Maria e dos Santos, nossos irmãos, um lugar onde não há morte nem pranto, nem gemidos nem dor. Vós que sois bom e amigo dos homens, derramai sobre eles a vossa misericórdia e perdoai os seus pecados com o orvalho do vosso perdão. Vós que sois o perdão e a luz, dai aos vossos servos a glória imortal do descanso e paz. E a nós, que aguardamos a vossa vinda, concedei-nos a graça de percorrer os caminhos do mundo, solícitos para com os irmãos, com um olhar límpido e cheio de esperança, até ao dia em que, atravessadas as fronteiras da morte, nos unamos a Vós, pela fé. A vós, Pai, fonte da vida, no Espírito vivificante, por Cristo, vencedor da morte, toda a honra e toda a glória pelos séculos dos séculos. Ámen".

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