Em dia de São Martinho

Não pode passar o dia 11 de Novembro se que se fale em São Martinho. Cada vez mais longe dos tempos em que se matava o porco e provava o vinho, só nos ficam as castanhas e o frio e, em alguns anos, o sol de inverno, conhecido como o verão de São Martinho.
A vida de São Martinho, muitas vezes resumida ao episódio do seu encontro com o pobre, é um exemplo a imitar. Nos antigos livros dos santos estava escrito na vida de São Martinho que ele foi o primeira santo não-mártir, ou seja, foi santo pela sua vida e não por ter sido morto por causa de Cristo. Na Idade Média era celebrado com a mesma dignidade dos Apóstolos, pela sua grande tarefa do anúncio da Evangelho nas terras da Gália.
Estamos, portanto, diante de um homem que passou a vida fazendo o bem. Ainda catecúmeno (um catecúmeno é um adulto que se está a preparar para o batismo), percebeu que ser cristão implica o próximo. Por isso, ao ver aquele pobre, nu e com frio, não hesitou em cortar metade da sua longa capa, para minorar a sua penúria. Foi gozado pelos companheiros mas a ele pouco lhe importou. Para ele, tal como para nós, atitudes destas são normais: escolher uns cêntimos dos euros que temos, entregar roupa velha ou que já não usamos para os pobres, dar a comida que nos sobra para que, em vez de ir para o lixo, possa ainda alimentar uma barriga vazia... Tudo isso tem o seu mérito, muita caridade se faz assim e bendito seja Deus. Mas ainda estamos longe do impulso de São Martinho. Ele não foi buscar outra capa, cortou a meio da que estava a uso. Não deu do que lhe sobrava, partilhou. Um gesto simples, pequeno e discreto, que lhe foi revelado nessa mesma noite durante um sonho. Sonha com esse mesmo pobre. Mas agora reconhece-o. Não é um pobre qualquer nem mesmo o pobre que tinha encontrado. O pobre era Cristo, que estava embrulhado na capa de Martinho. A ele Cristo disse-lhe: "Martinho, simples catecúmeno, cobriu-me com esta veste". A nós, Cristo vai-nos dizendo a cada passo: "Sempre que fizestes alguma coisa a um destes pequeninos foi a mim que o fizestes".
Em 2005, o Conselho europeu declarou São Martinho "personagem europeu, símbolo da partilha". A mesma Europa que está a passar por uma grande crise económica. Cada vez mais iremos ter à nossa volta pobres com fome, mal vestidos e até sem casa. Os ricos vão continuar a enriquecer à custa deles e da nossa caridade. Os donos das grandes superfícies comerciais apoiam todas as campanhas de solidariedade. Como não? Compre aqui e dê para os mais necessitados... Lucram os hipermercados e lucram os pobres... Mas, como digo, bendito seja Deus que ainda inspira em nós gestos de caridade e de partilha.
Mas, e nós? Teremos a mesma ousadia, coragem e simplicidade de São Martinho para irmos mais além de nós próprios e passarmos à verdadeira partilha de bens que não se resume a sobras, restos ou o que já não nos faz falta? Ou vamos continuar à lareira a comer castanhas, a beber vinho e entretidos com a carne, ignorando o que está a passar frio e não tem de comer? "Dar até que doa", dizia Teresa de Calcutá. E disse bem.
(imagem: A caridade de São Martinho, séc. XX)

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