Cristo vem sempre depois

Ontem a falha de internet no convento e a muita chuva que caiu sobre Roma desanimou-me na escrita sobre Florença. Com o tanto que vi e o que ficou para ver (na realidade só ficou por ver o museu de São Marcos e a igreja de São Lourenço), deu-me Deus a alegria de também estar onde pouca gente costuma entrar. Como ter a possibilidade de ter visto esta pintura, da qual tirei fotografia, de um Cristo tão diferente dos Cristos de Fra Angélico. Pensei que seria das suas primeiras obras. O frade que me fez a visita explicou: O Fra Angelico gostava de saber para onde eram os quadros: se eram para frades eram mais simples (só o essencial), se era para igrejas ou lugares públicos, pintava com mais pormenores. Esta motivação não era porque não gostasse de pintar para os frades mas, continuou, porque os frades não precisavam de tanta catequese. De Florença fica-me na memória a vida humilde e reformadora de homens como Fra Angélico ou Savonarola, ali entregue à morte, ou ainda de Santo Antonino, grande reformador da Ordem Dominicana.
como saí cedo de Florença acabei por concelebrar em Santa Maria Maior, como tinha planeado. No tempo em que os papas celebravam aos domingos e dias santos nas igrejas de Roma, no primeiro domingo do Advento calhava em Santa Maria Maior. Ali concelebrei e, sem prever, os que cantaram na Missa cantaram alguns cânticos em português.
Hoje, segunda-feira, começaram os trabalhos da Comissão de Liturgia da Ordem, a que pertenço. Graças a Deus temos uma tradutora que nos ajuda. Hoje dois assuntos importantes ocuparam as nossas sessões de trabalho: a nossa aprovação do novo calendário da Ordem, da aprovação do calendário da província de Portugal (YES!) e a aprovação do novo Missal da Ordem para a língua italiana. Estas aprovações foram fáceis... Agora faltam as confirmações do Vaticano... Teremos de esperar que tudo corra pelo melhor.
Pela minha parte, já inicei o meu parecer sobre liturgia e formação inicial. A minha estada em Nápoles foi útil para poder transmitir a nós, mais velhos, quais são os desejos e inquietudes dos mais novos. Alguns dizem que os mais velhos estão no oito e os mais novos no oitenta (entre os liberais e os tradicionalistas). Pode até ser verdade. E se os mais velhos acusam os mais novos de quererem voltar ao antigamente, entenda-se ritualismo e devoções, também se deviam perguntar sobre o que fizeram da liturgia atual, a pós-conciliar, para que não interesse aos mais novos! Acho que os mais novos não querem ser tradicionalistas. Pelo menos intencionalmente. Prefiro concluir que os mais novos procuram aquilo que os mais velhos não souberam transmitir, ou desleixaram. Para os mais velhos (alguns), a liturgia não é importante, tanto dá assim como assado e para quê tanta coisa. Não é assim para os mais novos: eles querem respeito e qualidade no modo como a comunidade expressa a sua fé, pela liturgia. E não vão desistir.
Termino com uma conversa que tive ontem na sacristia de Santa Maria Novella, em Florença, com o sacristão. Homem de idade, depois de saber que eu era dominicano, disse-me que São Domingos e São Francisco tinham vivido em Florença. Pelo menos a tradição diz que eles faziam "voluntariado" no hospício que ficava em frente do convento. Sorri e disse que eram como irmãos. Ele acrescentou: sim, mas tinham os seus conflitos. São Domingos sempre apertou mais os seus frades para que estudassem e fossem homens de cultura. Eu concordei, e disse que, afinal, uma coisa sempre nos unia: a pobreza. E ele, de cara espantada, perguntou-me: a pobreza de quem? E eu disse: de ambos. E ele contestou: não padre. Já nem disso vocês se podem gloriar. Antigamente os frades eram sinal de austeridade: entrávamos numa igreja e era fácil ver um frade recolhido, a rezar, com devoção. Agora não os vemos. Passam o dia na internet e vêm a correr para dizer Missa com o telemóvel na mão. E concluiu: Hoje Cristo já não é a prioridade dos frades: primeiro tudo e depois Cristo. Sorri-lhe e disse-lhe no meu mau italiano: È vero: Cristo viene sempre dopo.

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