Antioquia e a responsabilidade cristã

A leitura da Missa de hoje levou-me à Turquia. Mais em concreto a Antioquia, onde pela primeira vez se chamaram aos seguidores de Cristo "Cristãos".
Em 2008, por esta altura, visitei algumas cidades da Turquia, entre as quais esta pequena cidade, já afastada do centro do país e do turismo turco.
Impressionou-me o que ficou do tempo dos primeiros cristãos: um lugar de oração, escavado na rocha de uma montanha. Aí celebrámos Missa, foi lida esta leitura dos Actos dos Apóstolos e sentiu-se a herança que aquela comunidade nos deixou.
Depois, visitámos a cidade e o bairro cristão, com apenas duzentos cristãos e, segundo os dados do padre, há cinco anos, oitenta deles seriam católicos. O bairro é pequeno, com ruas estreitas; a igreja onde eles celebram, esconde-se por detrás de uma porta de madeira e de um pátio. Tudo muito discreto. Infelizmente não conseguimos estar com aquela comunidade cristã.
Antioquia faz-me pensar numa comunidade frágil, pequena, tida talvez por muitos como dissidente de Jerusalém. Mas, ao mesmo tempo, uma comunidade que fala, decide para o bem comum e, certamente, como se diz de outras comunidades do Novo Testamento, seriam ou tentavam ser  também um só coração e uma só alma.
Impressiona-me o ser cristão hoje. A pouca responsabilidade que o nome nos dá. Não penso em martírio nem em humilhações, mas sim no amor que Cristo nos pede, não só entre cristãos, mas com todos e que, às vezes, fica tão aquém do desejado.
Ser cristão hoje. Significa, antes de mais, ser outro Cristo. Não se limita a fazer parte de um grupo mas sim a fazer parte de uma pessoa ou, mais ainda, sermos o rosto daquele que nos dá o nome; Jesus Cristo. Por palavras e obras, como Cristo, em atitudes de compaixão e de perdão, como Ele.
Ser cristão hoje significa também partilhar Aquele em quem acredito com os outros que também acreditam nele. Não sou o único cristão; comigo, muitos outros também o sentem na sua vida. E não ferir a unidade. Num cântico primitivo reza-se assim: "Não nos separemos pela discórdia. Acabem as discussões e contendas / para ficar no meio de nós o Senhor Jesus Cristo". Se Cristo nos une, porque é que nos temos de desunir em nome de Cristo? Desejar e promover a unidade de uma comunidade cristã e de toda a Igreja passa por amar aqueles que Cristo ama, os cristãos, e aquela por quem Cristo deu a vida, a Igreja.
Finalmente, ser cristão hoje significa dar a vida por Cristo. Ser cristão não é do foro privado. São Pedro, numa das suas cartas, diz-nos que não devemos deixar de dar a quem nos pedir as razões da nossa esperança. Dar a vida por Cristo é gastá-la bem gasta, deixando-se guiar pelo Evangelho que deve iluminar todos os recantos e mundos da vida do cristão.
Ser cristão hoje é mais que um título ou que uma catalogação. É mais que um sentido de mais ou menos pertença. Ser Cristão hoje é estar disposto a viver como Jesus viveu, pobre e simples no meio dos outros, ricos ou pobres, simples ou titulados, enchendo a todos com o amor e a proximidade de Deus, nunca esquecendo que o próximo é o rosto humano de Deus.
Termino com uma oração do Missal Romano a propósito de tudo isto que escrevi: "Senhor nosso Deus, que mostrais aos errantes a luz da vossa verdade para poderem voltar ao bom caminho, concedei a quantos se declaram cristão que, rejeitando tudo o que é indigno deste nome, sigam fielmente as exigências da sua fé. Por Cristo, nosso Senhor. Ámen".

(fotografia do Altar e da Cadeira da gruta de Antioquia onde, segundo a tradição, a primeira comunidade se reunia e, como se lê nos Actos dos Apóstolos, os discípulos começaram a ser tratados com o nome de «cristãos»)
 

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