Vanitatis vanitatum

1. Este título, que é tirado da Bíblia, do início do livro de Cohelet, é de difícil tradução. A mais normal é "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade". Mas não é a melhor tradução. Nós não temos sinónimo de vanitas... que em espanhol seria vanidad e, em português, vanidade, algo que significasse "aquilo que é vão". Não se trata de ser vaidoso ou que as vaidades sejam pecado mas que não adianta andarmos atrás do que é vão porque tudo é vão. Mas escolhi este título para ilustrar a fotografia que coloquei que, na sua medida, vai bater no refrão latino. Trata-se de uma montra, numa rua de Roma, dedicada a paramentos e roupas clericais mas tipo alta costura. Elogia-se a loja de fazer tudo por encomenda, personalizado, não para qualquer um mas para quem tenha dinheiro. Viveu de glórias, de vaidades e vanidades, costurando as batinas e as outras insígnias dos papas. O Papa Francisco travou a sucessão de papas que se vestiam naquela loja, preferindo panos e costuras mais baratas e caseiras. Mas a loja continua. Quando tirei a fotografia, cá de fora vi dois padres dentro a escolher tecido preto, talvez para batinas. Em tempos de simplicidade e de pobreza, como os que vivemos e para onde nos chama o Papa Francisco, alguns clérigos ainda gostam de andar bem "arreados". Vaidade das vaidades...
2. Se ontem deitava foguetes pela entrega do futuro calendário da Ordem, hoje apanhei as canas. Soubemos logo de manhã que o Papa tinha decretado que a memória de Santa Maria Madalena passa a ser festa. Nova alteração ao Calendário, com novo envio de textos... vamos ver se é desta. Mas o motivo é bom. Santa Maria Madalena, conhecida como Apóstola dos Apóstolos como lhe chamou São Tomás de Aquino e, entre nós, dominicanos, Pregadora dos Pregadores, é reconhecida como a primeira testemunha da misericórdia do Ressuscitado. Por isso ela é Apóstola dos Apóstolos: foi ela quem anunciou aos Apóstolos, a notícia da Ressurreição. Para nós, dominicanos, modelo de uma pregação nova, alegre e próxima.
3. Ontem, na reunião da Comissão, recebemos o Promotor da Justiça e Paz. Mike Deeb, que também é delegado permanente junto da ONU, é um homem simples, sincero, que transmite tranquilidade. Tivemos ocasião de falar um dia depois do almoço, sobre liturgia e Justiça e paz, e convidei- a vir falar-nos desse tema. O encontro foi bastante interessante mas gostei, sobretudo, da expressão que usou sobre este tema da Justiça e paz: temos muitos teóricos sobre justiça e paz, mas, na prática, poucos envolvidos com os problemas das pessoas. Dizia ele: a justiça e paz faz-se pregando e caminhando. Eu Estou de acordo.
4. Como costume, quando venho a Roma, fui hoje rezar com a comunidade de Santo Egídio. Bonita basílica, a se Santa Maria Trastevere, onde se prega e caminha. Por exemplo, no dia de Natal, o almoço com as pessoas sem-abrigo e outras, carenciadas, é servido na própria basílica... O que seria escandaloso noutro sítio aqui é bonito e digno. Os cânticos, acompanhados com órgão, simples e bonitos. Estava Andrea Riccardi, fundador da comunidade, que presidiu à oração. Escolheu como leitura o início do segundo livro de Samuel. É o famoso poema de lágrimas, ou lamentação do Rei David pela morte do seu amigo Jónatas. E, depois de ler esta passagem, começou a falar de um rapaz do Malawi, que vivia em Roma, muito empenhado na Comunidade de Santo Egídio e, ao que parece, estava doente desde a Páscoa. Morreu hoje. Também ele chorou a morte deste rapaz, cheio de vida e de alegria, que tinha ajudado a construir uma casa para idosos abandonados e para crianças "sem-nome". Disse ele: as lágrimas também são oração e como David também hoje nós choramos esta vida. No fim pediu a Jesus, o Bom pastor, que pusesse este rapaz aos seus ombros e o conduzisse ao reino da Misericórdia. Por ser sexta-feira cantou-se o cântico do bom ladrão, com uma estrofe que dizia assim de Jesus: "Como um cordeiro, também tu foste conduzido / ao matadouro dos tosquiadores / No teu coração não há ódio / mas amor e perdão para todos. / Não chamaste legiões de anjos, / mas confiaste no Pai". E pensava: haverá alguma oração mais bonita nos útimos momentos da nossa existência sobre esta terra que a do bom ladrão: "No teu Reino, Senhor, lembra-te de mim"?
5. Tudo a ver ou nada a ver, ontem, de repente, já quase a dormir, lembrei-me da fábula do corvo e da raposa, que a minha mãe contou tantas vezes, quando eu era miúdo. Sem eu saber e ela também, quem a inventou foi o famoso Esopo. Podia ser uma história da Salta Pocinhas do Aquilino mas não. A história é simples, conto-a aqui eu, não como a ouvi da minha mãe mas ao meu jeito: Era um corvo preto que apanhou com o bico um grande bocado de queijo e subiu para o tronco de uma árvore para o comer tranquilamente. Nisto aparece a manhosa e esfomeada raposa que repara no bocado de queijo que o corvo tem na boca. Como conseguirei eu comer o queijo?, pensou ela. E foi fácil. Começou a elogiar o corvo: Senhor corvo, bom dia, que penas tão bonitas tem. E asas tão longas que até o negro fica brilhante quando as abre. Certamente não haverá no bosque ave tão formosa, esbelta e bonita. E pensava eu, senhor corvo, que deve ter uma voz maviosa e maravilhosa. Se cantasse para eu ouvir, não sou eu mas todo o bosque, certamente todos ficaríamos rendidos ao seu encanto. E o corvo, que não cabia em si com a vaidade e com o elogio, abre a boca e começa a cantar. Ora, como é bom de ver deixou cair o queijo, que logo a raposa apanhou e comeu. E ainda lhe disse: Senhor corvo, vaidade tem muita agora inteligência tem pouca ou nenhuma!
E termino como comecei: cuidado com o que é vão. A vaidade pode diminuir a inteligência.

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