O dia dos defuntos


Para muitos, certamente por causa do feriado, foi ontem o dia do cumprimento dos rituais do dia dos Santos: Ir à missa, ir ao cemitérios colocar umas flores nas campas dos familiares e amigos, deixar uma vela acesa e, talvez ainda, chorar um pouco a ausência dos que estão já noutra vida.

Mas hoje é que é o dia dos fiéis defuntos; ou seja, de todos aqueles que estão junto de Deus. Porque é para aqui que esta festa nos leva. Sabemos que a morte faz parte da vida, sabemos que a verdadeira vida será junto de Deus porque será eterna.

Quando era miúdo ia com a minha avó a Feirão, sempre que podia, para cumprirmos estes rituais. Lembro-me bem do que era aquela noite de finados: frio, nevoeiro, chuva, terço na igreja pelos defuntos, depois jantar à lareira em casa de uns vizinhos, enquanto se conversava sobre a vida dos que tinham morrido e dos que estávamos vivos e eu ia ao cemitério ver as velas acesas em cima das campas. No dia seguinte missa muito cedo com ida em procissão ao cemitério. Depois destes rituais, regresso a Lisboa.

Já adulto deixei de os praticar. Raramente vou ao cemitério. Só quando vou acompanhar um funeral. O meu pai, a minha avó e os outros meus avós, estão no meu coração e na minha memória. E isto para mim basta.

Um dominicano do século XVI, fr. Luís de Granada, escreveu assim sobre a morte dos justos: "O justo morre cantando como o cisne, dando glória a Deus pelo seu chamamento. Não teme a morte porque temeu a Deus; não teme a morte porque temeu a vida; não teme a morte porque gastou a sua vida em aprender a morrer e a preparar-se para morrer; não teme a morte porque para o justo a morte não é morte, mas sono, mudança, ultimo dia de trabalhos, caminho para a vida e escada para a imortalidade".

Um outro dominicano, nosso contemporâneo, fr. José Augusto Mourão, que vive na minha comunidade, escreveu esta oração:
Acolhe, Pai, na tua ternura
aqueles que viveram e caminharam para ti.
Lembra-te de todos os que morreram:
os que nos eram familiares,
os que morreram na guerra ou nas prisões,
os que morreram sós e os esqueceram.
E a nós dá-nos a liberdade
no vaivém das estações
e das cruzes desta vida,
para que, passando o escuro,
encontremos a luz que não acaba
".

Eu rezo assim:
"Senhor Jesus, eu sei que és a Ressurreição e a Vida. Sei que aqueles que amei e que partiram estão junto de ti. Queria recordá-los, neste dia. As suas vidas, o que me ensinaram, o que me transmitiram, o que foram para mim. Mas, neste dia, o meu coração quer ser mais aberto. Quero lembrar-me de todos os que estão junto de ti. Aqueles que hoje não têm quem reze por eles, os que sofreram e fizeram sofrer, aqueles que não aceitaram a morte, os que morreram desesperados e os que viram na morte uma luz de esperança. A eles, dá-lhes, Senhor, a glória da imortalidade. A mim, dá-me a esperança numa vida que não tem fim, que é a vida eterna que me dás. Ámen".

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