Vocações e Seminários


Esta semana é, na Igreja Católica, de oração pelos Seminários. E quando se fala em seminários fala-se em seminários diocesanos, que preparam rapazes para virem a ser padres, ligados a uma diocese e, com muita probabilidade, a uma ou mais paróquias.

No país há 30 seminários diocesanos. Eu vivi num deles há uns anos atrás. Sim, porque antes de ser o que sou já fui seminarista diocesano de Lisboa. De 1995 a 1998. Foram tempos interessantes. Lembro-me da minha mãe ter que marcar toda a minha roupa com o número que me tinham atribuído; lembro-me dos quartos em que habitei, dos espaços do Seminário de Almada, por sinal, antigo convento dominicano; lembro-me dos trabalhos comunitários, das recolecções, dos retiros anuais... mas não com saudade. Já lá vão 15 anos desde que entrei e dou graças a Deus por ser um frade dominicano. A minha história não é como a do Vergílio Ferreira na sua manhã submersa. É bem mais leve. Pergunta legítima: porque é que foste para o seminário? Porque é a realidade que se conhece quando se tem 20 anos: uma paróquia, com um pároco diocesano que, quando lhe dizemos que queremos ser padres, nos mandam para o seminário diocesano. Outra pergunta legítima: porque é que saíste do seminário? Porque não era um estilo de vida que me agradava, porque houve algumas incompatibilidades, a grande incompatibilidade com o Director espiritual (único e obrigatório, ao mesmo tempo director e confessor...), porque conheci os dominicanos. No tempo do seminário gostava da vida comunitária mas sabia que ela não era fraterna. Sabia também que um dia a vida comunitária iria acabar e eu não queria. Também sentia que a formação que lá tinha era muito a de uma forma na qual tínhamos que ser formados. Foi por estas razões, e ainda por outras, que saí.
Uma frase muito frequente lá era: "Ninguém sai do seminário da mesma maneira: o seminário ou forma ou deforma". A mim formou.

Foi no Natal de 1995, estava eu há dois meses em Almada, que me oferecerem o 'Livro em branco'. E foi por essa altura que comecei a escrever o que sentia, em forma de oração e em momentos mais críticos. Já pensei várias vezes queimá-lo mas ainda por cá anda.

Porque já lá vão 11 anos, deixo-vos o que escrevi no último dia que vivi no seminário:

«"Grande é o Senhor e digno de louvor" (Salmo 47).

Senhor, é dia da conversão de São Paulo. Estou em véspera de sair do seminário. Uma nova etapa na minha vida se avizinha. Saio triste, saio só, saio com saudades. Saudades dos colegas, saudades dos tempos que aqui vivi.
O Nuno Coelho acabou de pronunciar o discurso dos finalistas. Temos padroeiro: São Carlos Borromeu!
Que os ajudes a serem bons rapazes, bons padres.
Quanto a mim, ajuda-me nesta nova fase da minha vida. Não é o fim, se calhar é o começo. Do quê? Só tu o sabes. Pressinto que grandes coisas me estão guardadas. O quê? Só tu sabes. A mim resta-me viver como tu queres. Ajuda-me na minha conversão. Ajuda-me a converter-me.
A Cartuxa... fica sem efeito»
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Do meu curso alguns saíram, dois já morreram. Todos os anos há um almoço de curso. Nunca fui. De vez em quando ainda nos cruzamos... e matamos saudades.

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