Uma cruz



"O frei Filipe leva a cruz da Rosário!"
"Não. A cruz da Rosário não a posso levar. Quanto muito, esta cruz pode-me lembrar a cruz da Rosário e rezar por ela".
Foi assim, meio a brincar meio a sério, que na terça-feira comentavam a oferta desta cruz. A Rosário desfazia-se dela. "Esta cruz faz parte do meu exílio. Nunca a cheguei a pendurar". É uma cruz de areia, simples, adquirida num mosteiro da Galiza. Não teve direito a embrulho, trouxe-a na mão, foi vista, comentada e agora está em cima da secretária. Curiosamente anda nas letras da imprensa e nas vozes da televisão a polémica das cruzes em edifícios públicos.
Nós, cristãos, não poderíamos ter outro símbolo que nos dissesse tanto. É daqui que Cristo reina, é na cruz que nós encontramos o conforto e a esperança para os nossos sofrimentos e para os sofrimentos do mundo. Já que não nos podemos crucificar, ao menos podemos agarrar-nos ao Crucificado e à sua cruz.
A cruz leva-nos ao amor de Deus. A cruz leva-nos ao sofrimento do outro. A cruz dos outros faz de nós Cireneus.
Hoje, sexta-feira, no hospital, deparei-me com várias cruzes: confissões, preocupações, angústias, dores... uma senhora numa cama, já ausente, que entrega a sua vida a Deus, como Jesus o fez. Filhas preocupadas com a saúde da mãe, cada vez mais frágil. Curiosamente outras filhas também preocupadas com o pai. Sinto que a minha humilde e pobre ajuda é a de ser Cireneu. Ajudar, mais com a oração do que com as palavras, a que entremos nestes mistérios que nos assaltam. Não vale a pena muitas perguntas; aceitar a cruz é a resposta.
A mais antiga oração de Sexta-feira, que nós conhecemos, é muito pequena. Diz somente isto: "Nós te adoramos e bendizemos ó Cristo, porque com a tua cruz remiste o mundo". Deixo-vos este texto, cantado em latim, com uma belíssima música de Taizé. A imagem é Cristo abraçado à Cruz do El Greco (1602).

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