Ir à outra margem

Não estou em Portugal mas o acontecimento ficou conhecido em todo o mundo: o Papa foi ontem a Lampedusa. E nesta visita, a primeira do pontificado, as imagens e as palavras disseram muito e os símbolos e intenções disseram tudo.
Imagens: vemos o Papa próximo das pessoas. Não importa se são legais ou ilegais; são pessoas. Um papa que sobe a um barco de pescadores e, com eles, percorre o mar e atira uma coroa de flores em memória dos que morrem em busca de uma vida melhor.
Palavras. Não foram só as imagens que chamaram à atenção. O papa falou aos que ali estavam e ao mundo inteiro. Não mandou recados - não é o seu estilo - não provocou, somente lembrou que os outros não nos podem ser indiferentes. E que se perdeu a experiência das lágrimas, que entrámos num egoísmo atroz, fruto da globalização e da cultura ocidental.
O Papa agradeceu ainda a todos os que, naquela ilha, são bons-samaritanos, ajudando e promovendo a dignidade humana. Mesmo sem papéis, ninguém deixa de ser pessoa humana.
Símbolos. Não foram só as palavras e as imagens que falaram. O altar teve por base uma barqueta que naufragou naquelas águas. O cálice e o báculo foram feitos, igualmente, de madeira de barcos despedaçados. Não rasguem as vestes os liturgistas: que é a liturgia senão a celebração do mistério de Cristo encarnado no mistério dos cristãos?
Intenções. O papa faz bem em comandar a sua vida e, sem fazer publicidade, controlou a visita ao pormenor: o jipe foi emprestado pelos lampedusanos, redução de pessoal de segurança e de comitiva e não querer celebrações de boas vindas. Além de ficarem caras não era esse o objectivo da visita.
Dou graças a Deus pelo papa Francisco. Foi e manda-nos ir, como Jesus, à outra margem, ao outro lado da estrada, o de está um ser humano, um irmão, que precisa de nós para se levantar do chão. 

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