Sobre Jesus e outras literaturas

Uma amiga ofereceu-me uma revista sobre Jesus. Não é uma revista espiritual nem teológica. Trata de história e geografia. Mais de cem páginas sobre Jesus e o seu contexto histórico e geográfico. Só a folheei e do que vi gostei. Boas fotografias e gravuras, textos e mapas. Quanto ao texto não me posso ainda pronunciar.
Mas questiono-me já, não querendo precipitar a leitura: Será que se pode falar de Jesus sem o contorno teológico e espiritual? De modo nenhum. A apaixonante vida de Jesus, e de onde sabemos a maior parte, vem da catequese, da teologia, da espiritualidade que os seus contemporâneos viram nele e experimentaram.
Ora, este pressuposto não pode impedir que se estude cientificamente Jesus Cristo. Não abala a fé, mas pode iluminá-la. O redactor da revista não esconde isto quando diz que Jesus, figura, história e mensagem, atravessa dois mil anos e que, hoje em dia, mesmo em sociedades secularizadas e laicas, ele continua a ser uma contrastante referência.
É lugar comum dizer-se que não importa se se diz bem ou mal de alguém; o que importa é que se diga. O mesmo pensamento poderia servir para a escrita. Não gosto nem concordo. Seja sobre Jesus ou sobre mim ou qualquer outra pessoa. Qual o interesse de dizer ou escrever mal de alguém? Para mim cheira logo a esturro: ou inveja ou maldade. E não me convencem as bentas respostas de dizer que não se está a dizer mal mas que se está a dizer a verdade. Adiante.
Sobre Jesus diz-se e escreve-se muito, bem e mal. Mas escreve-se. Exagera-se ou espera-se mais. Já São João, no final do seu Evangelho, dizia que muito havia a escrever sobre Jesus e que se fosse a escrever tudo não chegaria este mundo para guardar os livros que se escreveriam. Talvez um pouco exagerado mas talvez seja a pessoa sobre quem mais se escreveu neste mundo.
Um deles foi Saramago. Trago-o aqui nem para dizer bem nem mal do que escreveu. Não conviveu com Jesus, não teve fé (pelo menos era o que dizia), os evangelhos não contavam para ele porque não eram livros de história, escreveu o seu evangelho e muitas outras coisas sobre Jesus. Não é de admirar que tudo o que escreveu sobre Jesus foi incompleto, como o que os teólogos e especialistas escreveram, diria ele. Mas volto a dizer: não quero aqui trazê-lo por causa de Jesus nem do Evangelho que escreveu. Sou um fiel leitor das suas letras, exceptuado, por teimosia, o Evangelho de Jesus Cristo. Dos 18 livros dele que tenho na minha estante, foi o único que não foi lido. Para dizer a verdade nem sei se o comprei ou se mo ofereceram (o mais provável).
Saramago, no final da sua vida, entrou na blogosfera. Como li os Cadernos de Lanzarote, também fui acompanhando, não tão assiduamente, o que ele escrevia no blogue. Mas li, na semana passada, em espanhol (ao que se chegou) "El último cuaderno". Foi-me oferecido em terras de Espanha, onde a literatura em português não abunda e, por lapso, não levei nenhum livro. E gostei do que li. Uma entrada é sobre livros para férias. Não a vou transcrever, o leitor poderá encontra-la no seu blogue. Mas achei muito interessante a sugestão que, no final,  ele dá aos leitores: "Organizem também a sua lista, definam a “família de espírito” literária a que mais se sentem ligados. Será uma boa ocupação para uma tarde na praia ou no campo. Ou em casa, se o dinheiro não deu para férias este ano". Eu bem gostava mas as minhas férias não vão dar para este devaneio de fazer uma lista de livros. Devaneio e deambulação, que foi o que fiz neste já longo post, fui buscar o Saramago só para dizer que a revista sobre Jesus, tema primeiro e do qual não queria sair, vai comigo de férias, para leitura calma e atenta. Certamente escreverei outra vez sobre a revista.
(imagem: Lucas Cranach velho, Jesus, séc. XVI, imagem que é a capa da revista)

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