Parar às dez e meia

O relógio da igreja acaba de tocar as dez e meia. Eu estou desde as nove na sala de cima, um lugar privilegiado da casa, sossegado, a traduzir textos.
E parei. Dei-me conta que não havia nenhum barulho humano. Parecia uma aldeia desabitada. De quando em vez uma brisa agradável, que entra por uma janela, o cantar dos pássaros e pouco mais. Olho para a estrada e vejo um homem que regressa, de enxada às costas. Do outro lado oiço, por fim, o chiar de um carro de vacas que vem carregado de fieitos. Fieitos deve ser uma deturpação de fetos mas aqui fetos não existem, o que existem são fieitos. E as campainhas das vacas. Servem para afastar os lobos mas aproximam as moscas. As de gente rica têm várias fiadas de campainhas, se é gente mais pobre, uma basta. As vacas são junguidas (outra adulteração de jungidas) para trabalhar. Bem diz o Eclesiastes: É melhor dois do que um só: tirarão melhor proveito do seu esforço. Hoje trazem os fieitos para se lhes fazerem a cama: as lojas são forradas com esta verdura para o gado se deitar. Daqui a uns dias levarão os que foram usados para adubar as terras que, enquanto houver gado, não se precisa de adubos químicos. Daqui a uns dias voltam a junguer as vacas para trazer lenha, ou as batatas que entretanto se começam a apanhar… Apesar de ser coisa do passado, usar os animais para o transporte de mercadoria, parece que agora retoma novo vigor. E é fruto da crise: o gasóleo está caro para alugar tractores. Queima-se o pouco lucro nas voltas.

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