Em cima do penedo I


Ir de férias com a minha mãe tem outro encanto. Como durante o ano estou com ela, mais ou menos uma vez por semana, no verão conseguimos estar 15 dias, normalmente na sua terra de origem, Feirão-Lamego. Passear, conversar, trazer ao presente memórias antigas...

Hoje, ao fazer uma limpeza no meu computador, apareceu o que iria ser um livro a partir da vida da minha mãe. Projecto ambicioso. Comecei a escrever as origens, até arranjei um nome para este livro: Em cima do penedo.

Não sei se algum dia isto irá a algum sítio mas o princípio começava assim:

"Como nada tinham, nada comiam. E se não era mal geral era de grande parte daquela aldeia de Feirão, nos finais dos anos cinquenta.
Tinha a região passado por uma peste, a ‘malina’. Crianças e adultos morriam, funerais, três num dia, segundo se conta.
A Erminda, que tinha casado há pouco com o Zé, está agora de esperanças. Breve nasce a primeira filha do casal. Como se há-de chamar? Clarinda, diz a mãe, lembrando-se de uma amiga que vivia longe.
Este casal vivia do que vendia. Nada de terras, nada de gado: nem ovelhas nem vacas. Os antepassados tudo tinham perdido na taberna, na jogatilha.
Como seria difícil a vida de quem nada tinha. Uma panela ao lume com água, para não apagar o lume, à espera que uma alma bondosa ou alguma tia lhe trouxesse uma couve ou uma malga de feijões para poder fazer o caldo.
O dia em Feirão começava cedo: antes do sol nascer já alguém toca o sino a Trindades. Hora de levantar e de dar graças a Deus por mais um dia que começa. Depois, cada um ao seu trabalho, quer seja na lida da casa quer seja no trabalho do campo quer ainda indo para o monte com o gado. Os pequenos têm a escola. Com uma professora e duas aldeias juntam-se as crianças e então, um ano as aulas são aqui, no outro são em Cotelo, freguesia de Gosende e concelho de Castro Daire.
Ao meio-dia o jantar, a meia tarde a merenda e à noite a ceia. Dia-a-dia, todos iguais menos ao Domingo. Roupa de ver a Deus, não se pode trabalhar, é a hora da missa na pequena igreja, dedicada, desde quando não se sabe, à milagrosa santa Luzia. Toca o sino três vezes: a primeira meia hora antes, a segunda quando se avista o padre e a terceira ao começar a missa. Lá está o Sacristão, entre a torre e a sacristia, acendendo as velas ou preparando o cálice ou ainda indo à fonte para encher a galheta de água.
Cada um tem o seu lugar: homens à frente e no coro alto, mulheres atrás. Missa em latim, cânticos novos que o sr. Padre daqui gosta da gente e a gente gosta cá dele.
As missas são cedo. Fica o povo despachadinho, e além disso o jejum desde a meia-noite até que se comungue não pode botar a missa muito tarde.
"


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