O filho da promessa

Não havia quem a consolasse. Os gritos, vindos da da Relva ouviam-se em todo o povo. O menino da Olinda tinha morrido afogado. Culpa de ninguém, porque a culpa morre sempre solteira, descuido de todos ou melhor, nunca ninguém pensava que aquele menino, de apenas três anos, fosse sozinho até ao tanque e no meio da brincadeira ficasse naquele tanque e ali se afogasse.
A vida é dura mas mais dura fica quando se perde um fruto das entranhas. A mãe estava na cozinha a arrumar a cozinha; o pai tinha ido com o gado para o monte, e os filhos estavam na escola. Nunca mais a mãe ficou igual. Ainda hoje, quando olha para um outro rapaz, nascido um dia antes deste que se afogou, ela chora e pensa: o meu seria assim se fosse vivo.
Mas a dor, já que não se podia sarar, porque dores destas não saram, tentou pelo menos aliviar. E pensa em ter outro filho, talvez em substituição do que morreu ou talvez porque a casa tinha ficado muda e nada melhor que os risos e os choros de uma criança para lhe devolver a fala.
Tem os seus inconvenientes. A idade já vai avançada, os mais velhos estão criados, mas Deus há-de ajudar. E temos de atribuir o milagre á Senhora da Lapa, que, para a mãe, foi ela quem fez que aquele menino se gerasse depois de tanto tentar. Já quase no desespero gritou à Virgem: “Senhora da Lapa, dai-me um filho, que eu irei com ele, de novena, até que ele seja maior”. E assim sucedeu. Ainda não tinha um ano e aquele menino entrava, ao colo da mãe, na igreja do Santuário da Lapa.
E aquele menino foi crescendo, em sabedoria, estatura e graça, como se diz no Evangelho, a respeito de Jesus.
Mas a história não termina aqui. Com poucos meses começa um comportamento estranho. O menino não dorme. Nem de noite nem de dia. E passa um dia, passa um mês e passa um ano, passam dois e não há maneira de resolver. Correram tudo, gastaram dinheiro com bruxos, curandeiros, que diziam que era mau-olhado, que tinha o ventre descaído… até que um dia lhe falam de uma benzedeira. E como tentaram tudo também a esta porta foram bater. Mas ela não atendeu. Façam-me uma chamada a meio da semana que logo se verá, mandou dizer pelo marido. E ligaram. Do outro lado lá disse a senhora: Comprem-lhe uma veste branca, vistam-lha e vão à capela da Senhora da Saúde, em Lamego. Quando lá chegarem entreguem a veste, rezem o terço e vamos lá ver se resolve. Não é à Santa de Cabril nem à de Cárquere. E lá fizeram como disse a senhora do telefonema. Compraram a veste, vestiram-na ao menino, e lá foram à capelinha, não tão conhecida como a Senhora dos Remédios, mas tanto ou mais milagrosa. Pelo caminho o menino foi a cantar. E à vinda, depois de cumprirem religiosamente as ordens, o menino adormece no colo da mãe. Eternamente agradecidos, à Santa de Lamego e à outra do telefonema, puderam enfim descansar.
O menino entretanto cresceu. Tem ido à Senhora da Lapa para cumprir a promessa e agora a mãe começa ganhar nova felicidade: entrou no seminário, está feliz e bem encaminhado. Hoje esta mãe mais consolada, desabafou comigo: “Olhe, senhor padre: Deus deu-me dois filhos: a um levou-o para junto dele, talvez a este o queira que ande pelo mundo a pregar o Evangelho”.

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