A vida de São Macário

Já cheguei a Lisboa. Mas na véspera de vir embora, na noite de quinta-feira, a minha mãe contou a vida de São Macário, como se fazia antigamente quando não havia televisão. Esta história é uma tradição oral. Não se sabe quem é este são Macário. O que diz a tradição é que vivia na serra que tem hoje o seu nome, que fica perto de São Pedro do Sul. A imagem que pus é a capela do santo onde se diz ter vivido. Vou aqui contá-la tentado ser fiel ao que ouvi e ao que a minha mãe ouvia, quando era pequena, do pai dela.
"O santo São Macário era almocreve. E por isso passava muito tempo fora de casa. E era muito tentado pelo diabo. Numa das vezes que regressava à sua terra, um amigo disse-lhe: 'Macário, andas tu fora de casa e a tua mulher deitada na cama com outro homem'. Macário ficou indignado. Entretanto os seus pais tinham ficado doentes. A mulher de Macário trouxe-os para sua casa para tratar deles. Eles estavam de cama. A mulher saiu para ir à fonte e Macário chegou a casa. Viu dois corpos na cama e, cheio de raiva pegou num machado e matou os dois que estavam na cama e pôs-se à porta de casa. Entretanto chega a mulher da fonte. E diz-lhe: 'Macário, ainda bem que chegaste. Os teus pais estão doentes e trouxe-os para casa. Estão na cama'. E Macário pôs-se a gritar: 'Ai que desgraça a minha. Matei os meus pais'. Cheio de remorços trancou a porta de casa, atirou com a chave ao mar e disse: 'Só terei a salvação quando esta chave me vier parar à mão'.
E foi penitenciar-se. Abandonou a aldeia e subiu para o monte e ali vivia como eremita. Num dia de muito frio desceu à aldeia pra ir buscar brasas. Como tinha já fama de santidade, trazia-as na mão sem se queimar. Mas viu, pelo caminho, uma rapariga de saias curtas e a tentação levou-o a olhar as pernas da rapariga e logo as brasas lhe queimaram as mãos.
Desde que matou os pais adoptou para si um refrão que sempre dizia no final de cada acção: "Quem o bem faz para si o faz; quem o mal faz para si o faz".
Uma mulher que não gostava dele, numa das vezes que Macário desceu à aldeia, cozeu-lhe um pão envenenado. Quando lho entregou, disse-lhe Macário: 'Obrigado. Quem o bem faz para si o faz; quem o mal faz para si o faz'. E subiu para a montanha. Vinha ao seu encontro um rapaz, o filho desta mulher má, cheio de fome, e disse ao santo São Macário: 'Macário, venho cheio de fome. Tens aí alguma coisa que eu possa comer?' E Macário pegou no pão e deu-lho. O rapaz agradeceu-lhe e Macário disse-lhe: 'Quem o bem faz para si o faz; quem o mal faz para si o faz'. E seguiu o seu caminho. Olhou para trás e viu que o rapaz tinha morrido. Pegou no rapaz e levou-o à mãe. Quando a mãe viu o filho morto perguntou a Macário: 'Que lhe aconteceu?' Macário respondeu: 'Não sei. Vinha com fome; dei-lhe o pão que me fizeste e depois de o comer morreu.' A mulher gritava inconsolável. E Macário despediu-se dizendo: 'Quem o bem faz para si o faz; quem o mal faz para si o faz'.
Certo dia, vem ao seu encontro um anjo disfarçado de mulher. Vinha com um sável na mão. E disse a Macário: 'Macário, trouxe um sável para ti'. E Macário disse-lhe: 'Não o quero que não tenho com que pagar'. E a mulher insistia e Macário recusava. Até que acabou por aceitar. Quando ia a amanhar o peixe para o comer, encontra na barriga a chave que tinha deitado ao mar. E lembrou-se do que tinha dito: 'Só terei a salvação quando esta chave me vier parar à mão'. E assim se santificou Macário nas penas desta vida."

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