Os Dominicanos e a pregação

Recebi um mail de um historiador amigo que me pedia alguns esclarecimentos sobre a pregação, que faz parte do carisma da Ordem Dominicana, e como nos Mosteiros das monjas contemplativas ela se pratica. Respondi-lhe assim:

1º Franciscanos e Dominicanos. O que nos une não é o carisma, ainda que pudesse ser parecido, mas o estilo de vida. De facto, com São Francisco e São Domingos, surge um novo modo de vida religiosa: as Ordens mendicantes. E é isto que nos une. Assumimos um mesmo estilo de vida pela mendicância, diferentemente da vida monacal que até então era a única. A forma de governo e estrutura diferem em bastante dos beneditinos que foram, desde o século IV até ao XII a grande referência.

2º Pilares da Ordem de São Domingos. Para ser preciso, a nossa Constituição Fundamental, baseada no espírito de São Domingos diz que o que nos é especifico é: vida comum, estudo, oração e pregação. Vem resumido no nosso parágrafo IV da referida Constituição. Já no século XIII, quando o Papa Honório III aprovou a Ordem dos Pregadores dizia que o que nos era pedido era abraçar a pobreza, e professar a vida regular para nos consagrarmos à pregação da Palavra de Deus. Nas nossas Constituições primitivas lê-se que a Ordem foi especialmente instituída, desde o início, para a pregação e a salvação das almas. Nós, normalmente, dizemos que a vida dominicana tem três colunas: vida comum, oração e estudo (a pregação brota do estudo. São Tomás de Aquino escreveu na Summa o que depois a Ordem assumiu como lema: Contemplare et contemplata aliis tradere [contemplar e dar aos outros o fruto da contemplação, o contemplado]). Se reduzirmos ainda mais, chegamos à conclusão que a ordem dominicana é, ao mesmo tempo, de vida contemplativa e de vida apostólica, sem confusão nem divisão.
Por isso, toda a Ordem e cada ramo, a seu modo, segue este mesmo espírito: vida comum, oração e pregação.
3º Mosteiros femininos de clausura. Não são excepção. E exercem a seu modo a pregação. São Domingos, quando fundou o primeiro mosteiro (primeiro fundou uma comunidade feminina e depois a masculina), em Pruille, chamou-lhe Domus Pradicationis, Casa de Pregação. Essas mulheres estavam ligadas à heresia dos cátaros. E o objectivo de São Domingos foi que elas, à semelhança dos frades, vivessem em comunidade, em oração e em contemplação. E ajudavam os frades na pregação pelo que ela tem de mais importante: a oração e a penitência. Diríamos, uma participação mística. Anos mais tarde, um dos sucessores de São Domingos escrevia que, essas monjas "ali viveram como servas de Cristo em perpétua clausura, admirável observância regular, edificante silêncio, trabalho e pureza de consciência." Sobretudo, como vem na sua Constituição fundamental, fazem a melhor e a mais exigente pregação: "anunciam o Evangelho de Deus com o exemplo da sua vida". E ainda: "Unânimes na forma de vida puramente contemplativa, guardando na clausura e no silêncio a separação do mundo, trabalhando diligentemente, fervorosas no estudo da verdade, perscrutrando com coração ardente as Escrituras, perseverantes na oração, praticando com alegria a penitência, procurando a comunhão na regra, com pureza de consciência e com a alegria da concórdia fraterna, procuram com liberdade de espírito, aquele que as faz viver unânimes na mesma casa e num novo dia as reunirá como povo resgatado na cidade santa. Crescendo na caridade no meio da Igreja, anunciam ao povo de Deus com misteriosa fecundidade e anunciam profeticamente, com a sua vida escondida, que Cristo é a única bem-aventurança. no presente pela graça e no futuro pela glória".
Portanto, todos pregamos. Embora não seja linguagem correcta mas possa ajudar, poderíamos dizer que os frades exercem uma pregação activa ou directa, no sentido em que saem do seu convento para pregar, enquanto que as monjas exercem uma pregação passiva ou indirecta, pregando com o seu modo de vida e rezando pelos pregadores. Espero ter ajudado alguma coisa.

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