Trasladação

Pode parecer estranho ou até bizarro, andar a mexer nos corpos sepultados. Foi o que aconteceu ontem, nesta pequena aldeia de Feirão.
O motivo foi simples: juntar um casal separado pela morte. A morte que tudo leva, até o amor, junta agora o que ficou de uma existência terrena.
Como já disse, para mim não fazia sentido haver qualquer cerimónia. Mas a família assim o quis; dar dignidade a uma trasladação. Mas quem deu sentido foi um genro, que lembrou acontecimentos da Bíblia, tirados do Antigo Testamento. E lembrou Abraão que, quandoo morreu a sua mulher, Sara, comprou uma gruta sepulcral para ela e onde ele próprio, anos mais tarde, quando morreu, foi sepultado.
Lembrou ainda Jacob, emigrante no Egipto, que fez jurar ao seu filho José que não o deixaria sepultar no Egipto mas que o faria enterrar junto dos seus antepassados.
Lembrou por fim Moisés, que morreu e foi sepultado à entrada da terra prometida, “num vale da terra de Moab, defronte de Bet-Peor, mas ninguém até hoje soube do lugar da sua sepultura”.
Foi neste espírito que se fez a trasladação dos ossos do Tio Manuel de Gosende para o cemitério novo, para a campa da sua mulher, a Tia Deolinda.