Um episódio dos anos cinquenta

Já foi capela e depois casa de uma família o monte de pedras que agora se vê junto ao largo da igreja. Lá está uma pedra a indicar a data: 1878. Diz-se que foi construída em honra de Nossa Senhora dos Milagres que ali mesmo aparecera. Já morreu quem sabia a história e o homem mais velho da aldeia já não se lembra da antiga capela. E porque o povo começou a crescer, já depois da malina, aquela epidemia da década de quarenta, que, como o Anjo exterminador, passou em todas as casas e em todas elas levou alguém consigo, lá se construiu a actual igreja onde então era o cemitério. Os homens do povo, comandados pelo Tio Albano, homem alto, dado às coisas da Igreja, que armava o palio, os guiões e os pendões no dia da festa, fizeram a trasladação dos corpos, com lenços a tapar a boca para não sentir tanto o mau cheiro da decomposição dos corpos, prepararam a terra para se começar a construção. Mandaram vir os pedreiros de Picão e, juntamente com os homens da aldeia, em pouco tempo levantaram o novo templo dedicado à milagrosa santa Luzia, padroeira da vista porque foi pelos olhos que a martirizaram.
Desactivada a capela, o Albano foi para lá viver com a sua mulher, Custódia. Da capela fez-se uma humilde casa: uma cozinha e dois quartos. Pobres, como quase todas as famílias, porque aqui a pobreza era denominador comum, excepto algum morgado ou algum feliz herdeiro de boas terras que já não seria pobre mas um remediado. Lá está o livro de registos de baptismos que o confirma: no canto inferior esquerdo, no lugar do selo do imposto que se pagava à diocese, naquele tempo dois tostões, está lá escrito pelo senhor prior, em quase todas as folhas, “pobres”. E numa aldeia de pobres, em que uns saíam a mendigar, outros a trabalhar as terras dos outros – aqui chamam-se jornaleiros – e outros ainda a vender o peixe pelas terras vizinhas, cada um tinha que fazer pela vida, porque ela custa a todos.
Mas se fosse só um casal a viver na casa, ainda sobraria espaço e comida. Mas filhos tinham tido seis: três vivos, três meninas que a morte já tinha ceifado, inocentes, como se lhes chama nos registos paroquiais e o sétimo vinha a caminho.
Era quase um salve-se quem puder. Na fogueira uma panela de ferro com água a ferver e unto, à espera que alguém lhes trouxesse algum acrescento, senão não haveria muito mais que comer a não ser juntar uma folha de couve esfarripada e um bocado de farinha de milho para o caldo engrossar e poderem comer, ao menos, umas papas.
Esta família cumpria, cada manhã, o mesmo ritual: a Erminda ficava em casa a tomar conta da irmã Celeste, a mãe de canastra à cabeça e filho na barriga, Manuel se há-de chamar, ia vender o peixe pelas aldeias vizinhas e o pai, com o filho mais velho, o Zé lá ia para a jorna. E voltavam a encontrar-se à noite, contando sempre e muito com a Divina Providência que é quem nos ampara e guia nos caminhos da vida, mas também com o que se vendia, graças á sorte e à boa-vontade de quem compra.
Assim se vivia.
Chegou o dia do casamento da Erminda. Vai casar com o Zé Coelho. Hoje temos os casamentos marcados ao final da tarde porque é bem, ou perto da hora do almoço por causa da boda.
Estes noivos casaram cedo. Às oito da manhã, antes da Missa. E não tenhamos ilusões: não houve nem vestido de noiva nem de noivo, nem convidados nem boda. Ali estavam os que tinham obrigação de estar: os noivos, pais e padrinhos e o senhor padre António Pinto, que tinha várias freguesias à sua conta, nestas serras de Montemuro, e sem padre o casamento não se faz.
Como é fácil de perceber, depois do casamento foi-se trabalhar, como em qualquer sábado do ano, talvez se tenha rancho melhorado, que também temos sentimentos e gostamos de fazer festa.
Também não houve Lua-de-mel. E a casa foi arranjada à pressa. Lá conseguiram uma loja dos porcos que estava sem uso e foi ali que se começou nova vida, naquele cantinho de amor, porque não é a casa que faz lar mas o amor que há nos corações de quem casa.


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