O que aí vem


Acabaram, esta semana, os meus dias calmos de que tanto gostei. Olho para a agenda e só vejo coisas marcadas. Além do que já faz parte dos ritmos diários, são celebrações, retiros, encontros, reuniões, confissões... muito para dar e também muito para receber.
Como ontem. Um dia muito corrido, reuniões, correcções de provas de um livro que vai sair, ida ao hospital missas, últimos retoques do curso que hoje vou começar a dar... Mas foi uma conversa com um doente que marcou o dia. A apontar para o seu corpo, doente, perguntava-me: senhor padre, isto é que é ser imagem e semelhança de Deus? E disse-lhe que sim. Que mais do que imagem e semelhança de Deus era imagem e semelhança de Jesus que também sofreu, que também viu o seu corpo ferido mas que caminhava para um corpo glorioso. Disse-lhe mais: o relato da criação do homem e da mulher, à imagem e semelhança de Deus é motivo para nós reflectirmos sobre a nossa dignidade. É que somos importantes para Deus. Ah! Disse-me ele, agora compreendo.

Falámos ainda sobre a vida. É cientista, tido como ateu mas não crente. E todas as noites agradece a Deus a mulher que tem. Diz que ao longo da vida Deus lhe deu algumas machadadas. Perguntei: Porquê Deus? Não me respondeu.

Disse-me ainda que o castigo que Deus nos deu foi o de nos tirar o instinto e nos dar a inteligência. Preferia ser como o gato do poema de Fernando Pessoa que me recitou de cor:

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Voltando ao tema, acabaram-se os dias calmos. Começa de novo a agitação. Ainda assim prefiro ser humano e não gato.

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