112

Apesar de ser um número internacionalmente conhecido para as urgências não escrevo nem de urgências nem sobre urgências. Estou em Ávila, num encontro ibérico de dominicanos, e o quarto que me calhou foi o 112. Como não há acasos, este número está associado a muitas coisas da minha vida. Este blogue era para se chamar pátio 112. Mas como na altura não estava para explicar o porquê, aqui vai a minha relação com este número. A minha infância, vivida num bairro oriental da cidade, passou-se num pátio, num pátio à moda antiga. Este pátio onde vivi era o Pátio 112. Tinha à entrada um portão verde, portão de duas portas, e dentro do pátio parecia uma pequena vila, daquelas vilas que ainda hoje se encontram nos bairros antigos. Um portão verde com um corredor e casas de um lado e de outro. Eram umas quantas casas. A minha era a porta 6. Aliás, a morada compreendia sempre o nome da rua, o número do pátio e o número da porta. A nossa casa era a porta 6 do pátio 112. Se me perguntavam onde vivia a resposta era: no pátio 112. O pátio era recatado. Umas quantas senhorias - A tia Etelvina e a tia Rosa, senhoras idosas com quem vivíamos, com quem partilhávamos a vida, como se de uma família se tratasse. Era a tia Noémia com o tio Justino, que era alfaiate, a tia Rosa com o tio João, a tia Silvina, que foi quem tratou de mim quando eu andava com os sonos trocados, para os meus pais poderem descansar e trabalhar nas horas normais, era a tia Susete que tinha uma venda de roupas e de linhas, era a tia Alice que era enfermeira reformada e o tio Manuel que era sapateiro, e ainda o tio Salvador que tinha uma taberna, com óptimos caracóis, melhores que os do Menino Júlio. Havia também um gato preto, que tinha o nome do pátio: cento e doze. Não era de ninguém, era nosso. Era mesmo uma pequena vila, para não dizer uma pequena família: todos sabíamos de todos e todos nos ajudávamos. Nós vivíamos numa casa razoável que, com o tempo e com o crescimento da família, foi alargando e melhorando. A mim aconteceu-me como aos pássaros, nos ninhos, quando já estão crescidos: com 19 anos saí de casa para ir para o Seminário. Poucos anos depois todo o bairro foi demolido para agora estarem a construir umas estradas largas. Do pátio 112 nada ficou. Hoje só na minha memória e na da minha mãe - não sei se o meu irmão ainda terá lembranças desse tempo... Os outros moradores vivem agora no pátio da Verdade. Hoje, 16 anos mais tarde, aqui estou eu, em Ávila, no quarto 112, a pensar no pátio que me viu crescer e que eu vi desaparecer.

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