História de um Papa ou de um Cardeal

Tive uma tarde relativamente calma. De trabalho, mas calma. Enquanto traduzia um texto sobre a vida de São Domingos, revi um filme sobre a vida do Papa João XXIII. Já o tinha visto em Roma, há dois anos, no Capítulo Geral, na língua original. Hoje revi com tradução. O filme não é nada de mais, mas a construção é engraçada. Às vezes os filmes começam a partir do fim, como este, em que o Papa está moribundo e um Cardeal supostamente amigo do Papa (o Papa sim, era amigo dele), amigos desde o tempo de Seminário, escreve-lhe uma carta, e é no desenrolar da carta que se desenrola também a vida do Papa. Ambos percorrem a vida de João XXIII. Vemos, ao mesmo tempo, um Papa bom, sorridente, próximo, que nunca desejou poder, e um cardeal que, após um desentendimento em tempos de seminário, nunca mais volta a ser verdadeiro com o seu colega e amigo Ângelo Roncali. Diante do Papa louva-o, nas costas do Papa diz mal. E assim vemos, ao longo de três horas, o bom Papa João a levar a sua vida, o cardeal, no passado, a tramá-las e, no presente, o mesmo cardeal contando a vida do Papa. Por isso digo que não sei se é a história do Papa ou a do Cardeal.
Até que chega o dia do confronto. O Papa chama-o a propósito de um artigo que se quer publicar, nada abonatório, em que se acusa o Papa de receber os "inimigos" da Igreja. O Papa, descontente, diz-lhe que a Igreja não tem inimigos mas adversários. E é bom, porque os adversários enfrentam-se e não fazem como ele que, nas suas costas, o ataca diante dos outros. O Cardeal, descoberto, diz que o Papa o pode destituir, se não está contente, ao que o Papa lhe diz que não o pode fazer porque não pode evitar gostar dele. Que ele faz parte da sua vida,  que ainda assim é seu amigo.
É quando se sabe que o Papa está doente, que o Cardeal dá a volta. Mas vai tarde. Tarde para os seus companheiros cardeais, mas não para o Papa. Já agonizante, o Cardeal aproxima-se para lhe pedir perdão. O Papa não deixa. Diz-lhe somente que terá sempre um lugar no seu coração e que não se atormente. E assim morre, perdoando, como Jesus.
É claro que um filme tem um argumento que ultrapassa a realidade. Não sabemos se foi verdade tudo isto, sobretudo os diálogos. Mas também não seria improvável. Tive um professor que nos dizia: Estejam preparados: tudo o que é possível pode acontecer.
Cinquenta anos depois do Concílio, rever a vida de um homem que imaginou o Concilio como um jardim de muitas flores que se abrem aos raios do sol, que apesar das dificuldades próprias do cargo e as que o rodeavam não desistiu, é trazer para os dias de hoje a juventude de um Papa que, apesar de velho, mudou a história do mundo e da Igreja.

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