Sobre o Bom Pastor e os pastores

O domingo do Bom Pastor já lá vai. No entanto, várias vezes, nesta semana, me tenho recordado deste tema, até porque foi um dos poucos domingos em que não preguei (deve haver três por ano). Esta tarde recebi uma mensagem de uma "ovelha" que me perguntava se estava tudo bem comigo e que no domingo, na Missa, a família tinha sentido a minha falta. Respondi que também eu tinha sentido falta de estar com eles. Ainda por cima no dia do Bom Pastor e eu longe do meu rebanho.
Antes de adentrar-me no tema dos pastores e dos bons pastores, gostaria só de dizer que a Missa não é mais ou menos válida dependendo do padre que a celebra. É óbvio que uma comunidade constrói-se, que há celebrações que se vivem mais com um certo tipo de presidência que de outro, mas é de condenar atitudes de pessoas que, se não for aquele padre a celebrar, viram costas, ou se sabem de antemão que não vai estar também não aparece.
A Missa é mais que nós todos porque não nos celebramos mas celebramos Alguém mais importante que nós e que dá sentido aos nossos encontros dominicais, que é Jesus Cristo Ressuscitado. A este propósito, remeto para um texto que acabei de reproduzir no blogue Aliis Tradere, que reflete sobre a importância da liturgia na nossa vida (Concílio Vaticano II - 3ª Parte).
Na Missa em que participei, o padre que falava pelos cotovelos e que, na última parte, para terminar, parecia os aviões no ar, em hora de ponta, às voltas, para poderem aterrar, começou por dizer uma coisa muito acertada: que Jesus nunca se intitulou como o "bom sacerdote".
De  fato, Jesus nunca usou para si a linguagem sacerdotal, mas sim a do povo, acessível, prática, como esta do Bom Pastor e a do próximo domingo, a da videira. Duas imagens rurais que não se devem questionar sobre a sua atualidade  ou mudar de imagens. O texto que referi há pouco, diz isso mesmo: a poesia usa imagens que não fazem parte da realidade para dizerem aquilo que não vemos mas podemos sentir. Por isso, saber que Jesus é o Bom Pastor chega para o cristão. E nós, os clérigos, não abusemos muito deste título porque, qualquer comparação, ficará sempre aquém do significa verdadeiramente, a partir de Jesus Cristo, ser Bom Pastor.
Gosto da imagem do pastor como aquele que só se sente realizado com ovelhas, no meio delas. E gosto da imagem do rebanho que convive com o pastor.
Numa reunião da semana passada, de esclarecimento de algumas questões, perguntava-se: "O homem é imperfeito, um sacerdote é imperfeito; como é que nós, católicos, podemos compatibilizar o imperfeito no sacerdote?" Para mim a resposta é óbvia: deixando de ver o "sacerdote" (outra atribuição indevida, porque na carta aos Hebreus sacerdote é só Cristo) como o separado, o perfeito, mas aquele que está com, que existe para, que dá a sua vida por. Não é um super-homem (se fosse não daria escândalo ou maus exemplos) mas alguém que está para fazer caminho com aqueles que lhe estão confiados. Muitas vezes são os padres os culpados porque eles gostam do estauto, mas outras vezes também são os cristãos que o gostam de exaltar e separar. O padre não está acima de ningúem; quanto muito à frente. No século passado (1981), o Cardeal Lehman, escreveu um artigo sobre o ministério na Igreja, hoje. E dizia a certa altura: "Nunca se deve esquecer que quem foi designado para exercer um ministério é antes de mais um cristão, e por isso mesmo, é para a comunidade, não está acima dela". Embora não seja ninguém, subscrevo.

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