São José, operário

Celebra hoje o mundo que se diz civilizado, o dia do trabalhador. A Igreja, que não quer ficar fora das comemorações, fixou neste dia a memória de São José, operário. Não para ser contra-corrente, nem fazer festas à parte, mas para valorizar a dimensão humana do trabalho.
Na Bíblia, o trabalho aparece como imposição de Deus, um castigo pela desobediência dos primeiros pais. Antes deste desafortunado acontecimento, Deus tinha dado ao homem tudo o que tinha criado: "«Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra.» Deus disse: «Também vos dou todas as ervas com semente que existem à superfície da terra, assim como todas as árvores de fruto com semente, para que vos sirvam de alimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus e a todos os seres vivos que existem e se movem sobre a terra, igualmente dou por alimento toda a erva verde que a terra produzir.» E assim aconteceu". É, aliás, esta leitura lida na Missa de hoje e não a da origem do trabalho que, como disse, aparece como imposição - não há outro remédio - para que se consiga sobreviver: "Deus disse ao homem: «Porque atendeste à voz da tua mulher e comeste o fruto da árvore, a respeito da qual Eu te tinha ordenado: ‘Não comas dela’, maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, todos os dias da tua vida. Produzir-te-á espinhos e abrolhos, e comerás a erva dos campos. Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado; porque tu és pó e ao pó voltarás»".
A Igreja, felizmente, nunca condenou o trabalhador. É bom trabalhar, Deus trabalhou para criar o mundo, cansou-se e teve necessidade de descansar. E assim acontece com o ser humano: trabalha para sobreviver, não numa perspetiva de servidão voluntária ou involuntária (há pessoas que vivem para trabalhar só para ter dinheiro) mas numa identificação com o gesto criador de Deus.
No Evangelho da Missa, lê-se a passagem de Mateus, em que Jesus vai à sua terra, toda a gente se admira do seu bem falar e dos milagres que faz e começam a questionar-se sobre as suas origens: "Não é ele o filho do carpinteiro?". E voltamos ao tema do trabalhador. José era carpinteiro, Jesus também terá sido. Trabalhar é bom, dignifica, ajuda a transformar o mundo e a realizarmo-nos como seres humanos, que fomos criado para o empenho e não para a preguiça.
A Igreja está do lado dos trabalhadores. Se calhar deveria estar mais. Mas preocupa-se com eles. Numas épocas com mais vigor que noutras, mas nunca insensível. A chamada "Doutrina Social da Igreja", inaugurada em 1891, pelo Papa Leão XIII, é um exemplo claro da preocupação da Igreja com as questões sociais, em geral e as questões laborais, em particular. Nós que só gostamos do imediato e da novidade e, às vezes, esquecemos o que já foi dito, poderíamos reler hoje, com extrema atualidade, a primeira encíclica social "Rerum Novarum", em que o Papa Leão XIII, numa grande frontalidade, condenou os excessos dos patrões e das fábricas, e defendeu os trabalhadores e os seus direitos, apelando à não-segregação de classes.
Hoje vamos vendo alguns bispos e padres que, mais timidamente ou mais frontalmente, tomam posição diante de realidades tão escuras como as da crise económica mundial e as das medidas, quase diárias, que os governos vão tomando, sempre para se protegerem mas prejudicando quem trabalha e vê no seu ordenado, subsídios e reformas, o reconhecimento válido do seu trabalho honesto e duro. Talvez, institucionalmente, se pudesse ser mais claro para se saber de que lado se está.
Que adianta ter feriados destes, em que se exalta o papel do trabalhador e do trabalho, para depois haver uma prática tão desonesta e desigual? Que o operário São José nos valha.

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