Que dizer de tudo isto?

«Onde está Pedro aí está a Igreja e aí está Deus».
(Santo Ambrósio de Milão)
«Lembra-te de que não és um sucessor do imperador Constantino, mas sim o sucessor de um pescador».
(São Bernardo de Claraval)
«Senhor, muitas vezes a vossa Igreja parece-nos uma barca que está para afundar, uma barca que mete água por todos os lados. E mesmo no vosso campo de trigo, vemos mais joio que trigo. O vestido e o rosto tão sujos da vossa Igreja horrorizam-nos. Mas somos nós mesmos que os sujamos! Somos nós mesmos que Vos traímos sempre, depois de todas as nossas grandes palavras, os nossos grandes gestos. Tende piedade da vossa Igreja: também dentro dela, Adão continua a cair».
(Cardeal Ratzinger)
Há quem veja nos últimos acontecimentos da Igreja (pedofilia, lutas de poder, publicação de documentos secretos), ataques dos maçónicos ou dos ateus ao Papa e à sua Igreja.
De fato não são boas notícias, nem coisas de que um católico se orgulhe, mas também não são ataques. Pelo menos eu não vejo desse binóculo. Prefiro outros miradouros. São coisas que acontecem numa instituição humana, governada por seres humanos, homens e mulheres, hoje uns amanhã outros, Adãos, como disse na Sexta-feira Santa de 2005 o então Cardeal Ratzinger, numa das suas meditações da Via-Sacra, hoje Papa Bento XVI.
Dizer, sem mais, que são ataques, é negar o óbvio, enfiar-se dentro da carapaça e não ter resposta capaz para dar. Infelizmente está à vista tudo isso, provado e comprovado, com prisões, neste último caso, mas anteriormente com violações e mortes.
Também, infelizmente, poucos são quem os que a defendem, e não falo dos que estão fora mas dos que estão dentro que, com algum riso e sarcasmo, ainda são capazes de dizer "bem feito".
Tudo isto é lamentável. O argumento, os atores e os espetadores. Tudo lamentável.
Não estejam à espera que eu dê aqui a resposta a tudo isto. Também olho e leio as notícias com tristeza. Talvez o Vaticano não devesse entregar a eclesiásticos os seus sistemas de governação... talvez o papa e os cardeais devessem dedicar-se mais à pregação e não tanto às contas... tudo isto certamente, e mais algumas coisas. Mas foi criada uma máquina que não pára. Que também é lamentável. Olhamos para a instituição "Vaticano" e vemos que, afinal, as regras são as mesmas dos sistemas económicos e políticos que tanto criticamos.
Mas há ainda um binóculo por onde se pode olhar o Vaticano: é o do Espírito Santo. Acreditar que Deus não abandona o povo que criou, que Jesus não abandonou a barca onde se sentou, que o Espírito Santo não deixou de apoiar com a sua graça a natureza frágil. E é por aqui que quero ver. Apesar das divisões, creio na Igreja Una; apesar dos escândalos, creio na Igreja Santa; apesar dos nacionalismos, creio na Igreja Católica; apesar das debilidades dos que a governam, creio na Igreja Apostólica. Não porque somos os melhores, que cada um pode comprovar por si próprio que não o é e, muitas vezes, deixamos a desejar... Mas porque, para além dos jardins do Vaticano e dos seus museus, para além da cúpula de São Pedro e do seu Palácio Apostólico, está uma realidade que nos transcende: a presença de Deus.
Ao longo desta semana iremos escutar esta oração no íncio das Missas: "Fazei, Senhor, que os acontecimentos do mundo decorram para nós segundo os vossos desígnios de paz e a Igreja Vos possa servir na tranquilidade e na alegria". Não foi escrita para esta semana turbolenta. Calhou. Aproveitemos este acaso de Deus para rezarmos por esta Igreja que amamos.
(Fotografia tirada de um monóculo do portão da Ordem de Malta, no Monte Aventino sobre a cúpula de São Pedro).

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