Somos simples homens

No próximo domingo iremos escutar, na primeira leitura, uma passagem dos Atos dos Apóstolos (capítulo 10), em que se narra a visita de Pedro a casa de um centurião romano, Cornélio. Ao entrar em casa, este centurião ajoelha-se diante de Pedro. Mas Pedro levantou-o e disse-lhe: «Levanta-te, que eu também sou um simples homem». No mesmo livro, mais à frente (capítulo 14), Paulo e Barnabé estão em Listra onde fazem um milagre em nome de Jesus. Os Listrenses pensam que são deuses e querem oferecer-lhes holocaustos. Então, os dois travam esta atitude e dizem ao povo: «Amigos, que fazeis? Nós somos homens como vós!»
Tenho vindo a pensar nesta atitude de proximidade dos Apóstolos, que podendo fazer-se valer do seu estatuto para terem tratamento diferente, falamos de Pedro e Paulo, acham-se iguais, normais, tão humanos como os que os ouvem ou recebem. E penso também nas distâncias em que por vezes os clérigos se colocam ou então, pior ainda, os colocam, pensando que são mais ou diferentes dos outros.
Conto, a este respeito, três episódios recentes, passados comigo - e que valem o que valem - que ilustram a maneira como nos vêm.
O primeiro foi há uns tempos no hospital. Normalmente estou identificado como padre para que as pessoas percebam que o capelão está por lá. Tem sido útil porque muitas pessoas aproximam-se, apresentam-se, pedem para falar, confessar-se ou dizem só bom dia. Mas, quando me chamam de urgência, não levo identificação. Vou vestido como estou e, quem me conhece, sabe que sou prático no vestuário. Um dia chamaram-me para ir de urgência ao hospital para dar a santa unção a um doente. Estava de ténis, calças de ganga e pólo, normal e corrente como qualquer ser humano. Entrei no quarto, apresentei-me, e comenta um familiar: mas o senhor é padre assim vestido? Estávamos à espera de um padre a sério. Engoli, fiz a celebração e no final chamei o familiar para fora do quarto e delicadamente disse-lhe: sabe, o que me fez de mim padre não foi o cabeção (camisa eclesiástica que identifica os padres) mas sim a imposição das mãos. A senhora pediu desculpa e eu desvalorizei, sem problema, a vida continua.
O segundo episódio tem vários capítulos. Na semana passada fui falar com uns alunos do 3º ano do primeiro ciclo (9 anos). Cheguei à sala e eles estavam no recreio. Chovia. A catequista disse que os ia chamar e, entretanto, veio um miúdo à sala buscar o impermeável e eu disse-lhe: não vai ser preciso porque o intervalo vai acabar agora que eu venho falar convosco. O miúdo diz-me: ok. Eu sou o Filipe e tu? Respondi-lhe: eu também sou o Filipe. Prazer em conhecer-te. O Filipe foi buscar uma caderneta e disse-me: conheces isto?, ao que respondi: sim, conheço, é a revista na National Geographic. E ele respondeu: não, não é. É uma caderneta. E, virando a capa da caderneta, apontou para o fundo da página e acrescentou: Kids. Não é a dos adultos.
Continuei a conversa: então gostas de coisas da natureza? Resposta: sim, gosto. E abri a revista e fiz-lhe perguntas sobre alguns temas que lá estavam e ele lá foi respondendo. Entretanto, chegaram os outros colegas e disse-lhe: ainda te faltam muitos. E ele respondeu: sim, tenho alguns para troca (mostrou-mos) e já pedi ao meu avô para me comprar mais mas ele não me compra.
A conversa ficou por ali e lá conversei com todos sobre a primeira comunhão.
Ontem voltei a encontrá-lo. Ele viu-me, veio ter comigo e, num cumprimento de mão ao contrário (típico dos mais novos), diz-me: olá frei, estás bom? E eu respondi-lhe: olá Filipe, tudo bem? Então, gostaste da Primeira Comunhão? Respondeu: Ya. Foi fixe. E sábado vou outra vez. A minha mãe faz parte do coro. E eu: muito bem. E a caderneta? Ainda está na mesma, respondeu. O meu avô não me compra cromos, mas eu consigo dar-lhe a volta. Não te preocupes. Adeus. Adeus, disse-lhe eu.
Esta história pode parecer até ridícula e a despropósito, mas a mim marcou-me. Um miúdo (que ele não leia isto!) que vem falar comigo, naturalmente, sobre cromos da National Geographic. Na volta até acha que frei é o meu nome!
Terceiro episódio, do mesmo tipo mas com alunos de outro colégio, que se preparam para o Crisma. 14 anos, portanto, idade difícil, e têm comigo, turma a turma, uma conversa sobre coisas de Igreja. Gostei muito de falar com eles, de perceber as suas dúvidas e as suas ideias sobre a Igreja mas, sobretudo, perceber que às vezes algumas dúvidas e ideias são as mesmas. Para mim foi importante e, depois do encontro, os miúdos foram dizer à responsável que tinham gostado do encontro com o frei. "No altar parece distante mas quando está ao pé de nós é muito mais próximo".
Que saiba não sou bipolar mas a verdade é que, por vezes, as celebrações afastam. Um dos míudos, na conversa, dizia-me que tinha pena que a homilia dos padres não pudesse ser dialogada. Sou da mesma opinião.
Bem, tudo isto para dizer que há pessoas que não percebem nem querem perceber que os clérigos são simples homens como os outros, há outras que nos vêem como pessoas normais e outros, cada vez mais e ainda bem, mudam de ideias em relação a nós. E tenho pena quando os miúdos nos tratam por tu e vêm os pais e os avós a dizer: não se trata o senhor padre por tu! Estragaram tudo.

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