Quatro apontamentos

Não ter ido a Angola não foi uma desgraça. Ou seja, não fiquei sem trabalho. Aliás, estes dois dias têm sido muito bons para retomar alguns projectos que esperavam na gaveta uns dias da minha disponibilidade para se verem adiantados ou concluídos. Aqui ficam hoje quatro apontamentos sobre estes dois dias.
1. Disposição para ouvir.  Creio que já aqui escrevi mas, como não sei onde, repito mais uma vez: um dos ministérios dos padres é o da escuta. Disponibilidade para escutar. Que é diferente de uma consulta de psicologia ou de uma conversa de amigos. Pode ser tudo isso mas é mais que isso. Entendo-o como um ministério. Não é muito reconhecido porque é necessariamente discreto. E também secreto. De uma das conversas fiquei com esta frase que me citaram, de São Tomás de Aquino, que já descobri a fonte: "Sustinere est difficilius quam aggredi" (suportar é mais difícil do que atacar). É realmente é verdade. Às vezes apetece reagir mas, o melhor, é sempre aguentar. É tão fácil ser violento.
2. Texto sobre voluntariado. Pedem-me uma pequena frase sobre voluntariado: profunda e original. Para um documentário. Duas grandes exigências: profunda e original. Tenho andado a maturar nela e já tenho começo: "A vida de uma pessoa não mede pela grandeza ou pela profundidade..." agora falta o resto... não se diz que o rabo é sempre o mais difícil de esfolar?
3. Questões de liturgia. Nos cinquenta anos do Concílio convidaram-me para uma pequena partilha-reflexão sobre questões litúrgicas. Não de coisas práticas - isso é rubricismo - mas de uma teoria sobre celebração e participação, uma espécie de avaliação da liturgia pós-conciliar. Ainda não aceitei, nem sei se o farei. Não gosto de fazer avaliações litúrgicas. Normalmente fica-se no "correu bem", ou no "estava muita gente", ou ainda "foi pesada ou foi leve". Há pessoas que avaliam a liturgia como espectadores que vão ver uma encenação. E é a partir do que acham e em função disso que emitem um parecer. Mas não se dão conta que uma das principais regras da liturgia é a participação. A liturgia envolve e a pessoa tem de se envolver e deixar-se envolver por Alguém que está a ser evocado nos ritos, ou digno de ser cantado num cântico ou rezado numa oração que brota dos nossos lábios. E não serve a frase de um senhor cónego, velhinho, meu amigo que, de vez em quando, dizia: não sei cantar mas sei como se canta! Na liturgia não é preciso grandes qualidades mas sim presença e envolvimento. Não é exibição mas celebração. Como disse, ainda não aceitei nem sei se o farei. Mas ainda não é para já; fica a marinar.
4. A morte de um amigo. Acabo de saber da morte de um amigo meu, padre. Trinta e quatro anos, foi encontrado morto, e não se sabe muito mais. Conhecemo-nos no Seminário de Almada e a última vez que o vi foi há uns meses. Estranhei  a maneira como me cumprimentou mas depois percebi o porquê. O meu primeiro sermão como padre foi numa das suas paróquias, convidado por ele, o "sermão do encontro". Aqui lhe presto hoje a minha homenagem e agradeço a Deus a sua amizade.

(Otto Franz Scholderer, violinista à janela, 1861)

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