Sobre Santo Antão e ser radical

A princípio a palavra "radical" fazia-me lembrar fanatismo, exagero. Até que, andando eu na casa dos vinte, e no Seminário, numa recolecção, apareceu a palavra radical. E o padre explicou: não radical de fanatismo mas de ir à raiz.
É uma palavra que uso mas que explico como me explicaram: radical de ir à raiz.
Hoje a Igreja celebra a festa de Santo Antão (ou António). Um homem radical. Para ele, o Evangelho foi norma de vida. Ao contrário do que às vezes nós consideramos, usando o Evangelho a nosso favor ou relativizá-lo, dizendo que Jesus não quer que sejamos tão "radicais", Santo Antão conforma a sua vida com o Evangelho. Lá está, conformar, que pode ter um sentido negativo e cheirar a resignação, tem na sua origem um outro sentido: ajustar. E, porque a palavra evangélica decisiva na vida de Santo Antão foi: "Se queres ser perfeito vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois, vem, segue-me", escutada ao entrar na igreja, entendeu-a para si e cumpriu-a à letra.
Santo Antão mudou a sua vida ao ir para o deserto, mas mudou também a vida de Igreja ao criar, sem querer, um movimento religioso, espiritual, do monaquismo. Na verdade ele é considerado o "Pai dos monges".
O movimento monástico dos primeiros séculos e até São Bento, conhecido pela "fuga mundi" é, de certa maneira, uma reacção à institucionalização e ao comodismo do cristianismo como religião oficial. Depois do modelo dos apóstolos e dos mártires, os cristãos ficam sem referências a seguir. A Santo Antão se atribui a origem deste novo modelo: rompe com o mundo e vai para o deserto onde, numa grande austeridade e em solidão, pela oração e pelo trabalho manual, vê passar os dias, juntamente com duras penitências e, de vez em quando, aconselhando, com pequenas frases, quando o exemplo não chega.
A sua vida foi escrita por Santo Atanásio (estamos a falar sempre do século III-IV) e era conhecido como "amigo de Deus". A quem quiser entrar no espírito destes Padres do deserto, aconselho a leitura calma dos "Ditos e feitos dos Padres do deserto". O livro é, de facto, o que diz o título. Aqui deixo, a título de exemplo, um dos ditos de um Padre do Deserto, sobre Santo Antão: "Disse um irmão ao abade António, o Grande: «Reza por mim». E ele respondeu-lhe: «nem Deus nem eu teremos piedade de ti, se tu não te preocupares contigo e nada pedires a Deus»".

(imagem: Jacopo Pontormo, Santo Antão, 1519)

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