Acção de Graças

A Comunidade celebrou hoje a festa de São Tomás de Aquino. Passou para hoje por ser sexta-feira e por ser a minha despedida. O Cardeal Nascimento, que pertence às fraternidades sacerdotais também veio. Concelebrou. Aqui deixo a homilia que fiz na minha última Missa em Angola.
Apesar de ontem termos celebrado liturgicamente a festa de São Tomás de Aquino, reunimo-nos nesta tarde, nesta igreja e convento que tem como padroeiro o Doutor Angélico, para o fazer de um modo mais solene.
Se calhar nunca seria demais lembrar em pequenos traços a vida de tão grande santo, mas, no entanto, queria apenas reflectir alguns episódios da sua vida que podem ajudar a nossa vida e a nossa maneira de ser dominicano, hoje, na Igreja.
O primeiro episódio que gostava de partilhar convosco é o da primeira pergunta que conhecemos de São Tomás. Diz a sua vida que sendo oblato beneditino, ainda muito novo, durante uma aula, ao ouvir falar de Deus questionou: Quid est Deus? Que é Deus?
São Tomás conviveu toda a vida com esta pergunta. O que estudou, escreveu, contemplou e pregou foi sobre a questão de Deus. Anos mais tarde, na Suma, vai escrever que a tarefa do teólogo é “estudar Deus e a sua revelação e, depois, todas as outras coisas à luz de Deus, porque Deus é a origem e fim de todas as coisas”. Diz-se que o seu mestre, Santo Alberto muito se admirou com o que São Tomás escreveu, e era de admirar, porque ainda hoje o que escreveu continua actual na teologia da Igreja e é recomendado e citado pelo magistério da Igreja. Ainda recentemente, quando o nosso Papa Francisco publicou a Bula do Ano da Misericórdia, citou o nosso São Tomás para dizer que “é próprio de Deus usar de misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua omnipotência”.
Queridos irmãos, nós que pertencemos à Ordem dos Pregadores temos como missão primeira a pregação. Ela há-de brotar do estudo, da vida comum e da oração. O estudo para nós, como foi para São Tomás, não é uma aplicação académica para obtermos graus, para acumularmos teses e doutoramentos. Para nós, dominicanos, o estudo é contemplação, é aprofundamento no mistério de Deus. Bem nos têm dito os nossos dois últimos papas quando pedem aos teólogos que façam teologia “de joelhos”, isto é, com fé e humildade. São Tomás viveu para Deus, sempre numa tentativa de dar aos outros os frutos da sua contemplação. Para isso serve a Ordem dos Pregadores: dar aos outros, partilhar com os outros o fruto do nosso estudo, da nossa contemplação.
São Tomás foi um homem de estudo. Mas de um estudo verdadeiramente dominicano. Com a comunidade. O seu Mestre, Santo Alberto Magno, já tinha dito e escrito que nós devemos “procurar a Verdade na doçura da comunidade”. São Tomás experimentou isso. Um dominicano vive da comunidade. O convento não é só uma residência de padres, ou uma universidade de clérigos. Um convento é o lugar onde os seus membros se reúnem à volta da Palavra para, na doçura da comunidade, procurar a Verdade. Nós, dominicanos, somos chamados a partilhar a Verdade, dentro e fora do convento. Dentro, através da oração e do estudo, fora, através da pregação e do exemplo.
Diz-se que São Tomás era um homem simples, puro, inocente e humilde. Ele próprio o escreveu: A humildade é o primeiro degrau da sabedoria. A primeira leitura dizia-nos isso mesmo: A sabedoria pede-se a Deus, bebe-se da fonte, que é Deus, recebe-se como dom, porque vem de Deus. São Tomás é grande porque foi simples e humilde. Os grandes são-no, não por mérito próprio ou por se afirmarem mas porque outros o reconhecem como tal. São Tomás foi grande porque percebeu que tudo o que escrevia e sabia vinha de Deus.
São Tomás não era um académico, um homem de escritório. São Tomás foi um dominicano a sério: rezava, estudava, vivia na comunidade e pregava. Divertia-se com os mais novos, emocionava-se na liturgia, tinha grandes devoções: ao Santíssimo Sacramento, cujo ofício ainda hoje nós usamos, a Nossa Senhora (o pequeno opúsculo sobre a Avé Maria) e a Cristo Crucificado.
E é sobre Cristo Crucificado que gostaria de contar um outro episódio, também conhecido, da conversa do Crucificado com São Tomás. Diz a história da sua vida que um dia São Tomás estava a rezar na capela de São Nicolau, em Nápoles, e o sacristão, ouviu um diálogo. São Tomás perguntava a Cristo Crucificado se o que tinha escrito sobre os mistérios da fé estava certo. E que o Crucificado lhe responde: Falaste bem de mim, Tomás, qual será tua recompensa?
São Tomás responde: Nada mais do que Tu, Senhor.
Queridos irmãos e irmãs, este deve ser o nosso desejo. Querer Deus. O mesmo Deus de misericórdia que experimentamos e que pregamos. É esse mesmo Deus que devemos desejar para a nossa felicidade e salvação. E também é esta a recompensa que o Senhor dá a quem se ocupa com ele e com as causas dele: Deus será a herança do pregador, Deus será a recompensa de quem gastou a sua vida por causa do Evangelho, Deus será o descanso de quem se cansou em trabalhar na Igreja e para a Igreja.
Nós, dominicanos, recebemos uma grande herança. Este nosso irmão, pai grande, poderíamos até dizer, deve inspirar a nossa vida dominicana, a nossa presença na Ordem, na Igreja e no mundo. Esta comunidade, que tem São Tomás de Aquino como titular, deve também tê-lo como modelo e intercessor. Neste convento onde se partilha a vida, onde se estuda, onde se reza e onde se prega, a Palavra de Deus deve estar no centro, como realidade a contemplar.
Hoje, rezamos de modo especial pelos estudantes e vocações da Ordem, a começar por estes nossos irmãos mais novos, e servimo-nos das palavras de São Tomás para pedir, com humildade e com fé, a sabedoria de Deus, que tudo ilumina e esclarece:
Criador inefável, Vós que sois a fonte verdadeira da luz e da ciência, derramai sobre as trevas da nossa inteligência um raio da vossa claridade.
Dai-nos inteligência para compreender, memória para reter, facilidade para aprender, subtileza para interpretar, e graça abundante para falar.
Meu Deus, semeai em nós a semente da vossa bondade. Tornai-nos pobres sem sermos miseráveis, humildes sem fingimento, alegres sem superficialidade, sinceros sem hipocrisia; que façamos o bem sem presunção, que corrijamos o próximo sem arrogância, que admitamos a sua correcção sem soberba, que a nossa palavra e a nossa vida sejam coerentes.
Concedei-nos, Verdade das verdades, inteligência para Vos conhecer, diligência para vos procurar, sabedoria para vos encontrar, uma boa conduta para vos agradar, confiança para em Vós esperar, constância para fazer a vossa vontade. Orientai, Senhor nosso Deus, a nossa vida, concedei-nos saber o que nos pedis, e ajudai-nos a realizá-lo para nosso próprio bem e de todos os nossos irmãos. Ámen.

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