As mangueiras

Como escrevi ontem, hoje acordei pelas cinco e meia para sairmos pelas seis para evitarmos o engarrafamento para podermos chegar às jornadas dos religiosos, que acontecem estes dias. Chegámos pelas sete ao Carmo, onde deixámos o carro e fomos a pé até às irmãs de São José de Cluny, onde era o encontro. Ao principio os cumprimentos e apresentações, sem grandes formalidades e o encontro lá se passou. Quando fizemos a pausa para o almoço e já eu com funge no rato, começaram a aparecer as irmãs que já tinham ouvido falar de mim em Portugal, ou me tinham conhecido lá. Depois do almoço, com um calor que não é o mesmo da Europa, tentei apanhar uma ventoinha sem ninguém por baixo para poder secar. Sim, secar. Estava literalmente encharcado do suor. Da parte da tarde só pude estar até às 15.30h porque ia concelebrar no Carmo (aqui diz-se ir rezar) com o movimento das mil Avé-Marias. É um grupo de senhoras, "mamãs", muitas delas, que vêm de longe e vão manhã cedo para a igreja rezar as mil Ave-Marias. Creio ser influência do Brasil e, mais em concreto, da Canção Nova. Mas vamos ao que interessa. Foi uma Missa tipicamente angolana: 98% de mulheres, revestidas com panos religiosos a fazer de saia a de lenço, que encheram a igreja, o coro alto, transbordaram para a rua e claustro da igreja. A Missa um encanto. A simplicidade dos canticos - só voz e palmas em alguns - e as brilhantes vozes enchiam a igreja e certamente faziam inveja aos Anjos cantores. Sem grande esforço distinguem-se três tons: o normal, o que sobe e os graves que dão a grande sonoridade. Como digo, não é preciso muito. Uma mamã dirige o coro e a assembleia, os cânticos são quase todos em Umbundo ou Quimbundo, excepto um ou outro que vão em português. E eu pensava no adormecidos que nós europeus - para generalizar - andamos. Temos tanto que aprender com a simplicidade dos ritos e das fórmulas...
Depois da Missa fui abordado por umas senhoras que me pediram para benzer objectos religiosos e outras para confessar. Depois da Missa, viagem para o quilómetro 9, visitar as Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena. São duas comunidades, perto uma da outra mas distintas no apostolado. Na escolinha da Paz estão três irmãs. Hoje só estavam duas: a Ir. Fernanda e a Ir. Paulina, uma portuguesa e outra angolana. Os apostolados são a escolinha da paz, que é um infantário, a comunidade e o centro médico, aberto à população. Quando os freis estão doentes vão lá e algumas vezes ficam lá a ser tratados. A grande surpresa foram as mangueiras que estavam lá. Nunca tinha visto. E a irmã Paulina, diante da minha perplexidade serviu logo mangas, para eu provar das verdadeiras. De facto, razão têm os angolanos para estranharem a nossa fruta plástica. A manga que comi era mesmo uma delícia. Da escolinha da paz fomos para a outra comunidade que é a do noviciado. Estão três irmãs e duas noviças. Visitei a minha querida Irmã Aurora, que lá estava toda contente, com pena de eu ir de noite, porque assim não via o quintal delas e, mais grave, não via o bairro delas. Mas pelas estradas, cheias de buracos e ainda com a água das chuvas de domingo, só mesmo de jipe se conseguia passar. Sobre o que se vê nas ruas vou tentar não comentar pelo indescritível que é (sem conotação negativa para já).
Jantámos com as irmãs, bacalhau com funge e ramas e, no fim, mamão da horta delas como sobremesa.
De lá passámos ainda no Quilómetro 12, onde temos uma comunidade, para cumprimentar os irmãos e entregar umas coisas. Depois, regresso a casa, com a escuridão incompreensível, com os solavancos do carro por causa dos buracos, mas um dia em que posso terminar citando o salmo 131: Óh como é bom e agradável os irmãos viverem juntos e em unidade. No fim de cada visita o refrão que se impõe: estamos juntos!

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