Do lugar onde estou - Primeiro dia em Luanda

O dia de hoje foi calmo. Não saí do convento onde fico a viver até domingo. O Convento fica no chamado "Projecto Nova Vida", tem dois anos e fica do lado oposto ao centro da cidade, a 20 quilómetros do centro. O bairro ainda está em construção mas notam-se grandes contrastes: deste lado da rua, em terra batida e com buracos da água, estão os prédios como este em que vivo. Ao lado já podem estar umas casas mais simples e pobres, e, do outro lado da rua, campos a serem cultivados. Passam carros, motas, mas também muita gente a pé que vai e vem, senhoras com roupa à cabeça para vender... Ao lado do convento há uma espécie de mini mercado e, ao lado, na estrada de terra batida, uma senhora com uma tenda montada a vender roupa. 
Como disse, hoje não saí. É o único dia livre. Fiquei por casa para preparar a próxima actividade que será uma formação litúrgica (mais prática que teórica, pedem) a cerca de 30 religiosos e religiosas da Família Dominicana, a começar na sexta e terminar no domingo, com a Missa na igreja do convento às 8 horas.
Este convento é novo. Tem dois anos. A residência dos frades e a igreja, que está numa outra parte do terreno, estão praticamente prontos. Nesta parte estão agora a montar um elevador exterior, que não fazia parte do projecto inicial.
Eu vivo no piso 3, o piso dos padres. No segundo estão os estudantes e os postulantes e, no primeiro, é uma hospedaria para encontros e retiros. São sete frades e dez postulantes. A igreja fica fora do convento mas ainda dentro do terreno.
O dia começa cedo. Às seis da manhã já se vê e ouve gente a trabalhar. Quando acordei, às seis e meia, já estava um homem num campo farto de cavar. Às sete horas foram as Laudes e depois o mata-bicho (existe aqui o verbo matabichar). Os padres saem cedo, por causa do trânsito, sem hora de voltar. Pode ser que venham, pode ser que não. O trânsito é que vai comandar a chegada ou não ao destino à hora certa. Os freis estudantes estão de férias. As aulas só começam em Março, este é o equivalente ao Agosto. Alguns freis estão mesmo de férias nas suas terras e virão só para esta formação do fim-de-semana,
Hoje foi um dia de sol, sem nuvens, mas as chuvas podem ser sempre repentinas, como a de ontem, que foi forte e apanhou muita gente desprevenida. Almoço ao meio-dia. Funge (de milho e de mandioca) com carne grelhada e molho. A cozinheira, cuidadosa, fez-me arroz, não fosse eu não gostar. Já lhe pedi que não me fizesse comida alternativa porque gosto de tudo. É boa cozinheira. Aqui chamam-na de Professora. No 25 de Abril foi para Portugal, tirou uns cursos de culinária e, entretanto, regressou.Veio para cá trabalhar, para ensinar a Dona Marquinha mas acabou por ficar e a D. Marquinha é ajudante. De sobremesa, manga ou gelatina, e é obrigatório provar as duas. Provei também o jindungo (malaguetas maceradas com um pouco de azeite e muito pouca cebola) na carne. Aprovado!
A tarde foi calma, de trabalho. Às 17.45h para-se de trabalhar. Terço às 18h, Missa com Vésperas às 18.30 e, depois, jantar. À saída da Missa cumprimentam-se as pessoas, com reverência.
Amanhã é dia de passeio institucional. Vamos só de tarde, visitar o Centro da cidade, e os monumentos. A visita terminará na nossa paróquia do Carmo, onde presido à Missa e regresso aqui.
Impressiona-me a humildade destas pessoas. Olho para os campos e vejo as pessoas curvadas, grande parte do tempo, nas colheitas das terras vermelhas e quentes de África. Ontem, no avião, o senhor que vinha ao meu lado dizia-me que aqui é tudo muito forte e por isso nós, europeus, não aguentamos nada. Até as colheitas aqui são 3 vezes por ano. Ao que parece estas são umas ervas que são rápidas de crescer. Não decorei o nome. E assim se passou mais um dia de calor. Apetece o ar condicionado mas não pode ser. Também por solidariedade.

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