Encontrar as mamãs

(Por impossibilidade de acesso à Internet não consegui passar por cá. Aqui fica o que escrevi no Domingo)
Hoje é domingo. Aqui no Wako os freis dividem-se pelas várias comunidades onde têm de celebrar. Há comunidades que raramente têm Eucaristia ao Domingo. Sempre assegurada a celebração da Palavra pelos catequistas mas a Missa é mesmo uma graça.
A mim, pediram-me que assegurasse a da paróquia, às 7.30h. Concelebrou comigo o fr. Gil. O coro, que altera em cada semana, era hoje de um grupo de 20 senhoras, o grupo Aleluia. Voltei a ouvir os sons harmónicos dos cânticos quimbundos e umbundos. A Missa demorou uma hora e meia porque fui eu a celebrar. Normalmente as Missas têm de demorar mais, sobretudo nas aldeias, para justificar a deslocação de longe, e muitas vezes a pé, de quem vem celebrar a fé. A homilia é escutada com muita atenção. E participada. Se damos espaço as pessoas terminam as nossas frases. Até um catequista, quando falei da união da comunidade, tirou um papel e escreveu umas coisas.
No fim da Missa, acompanhado por um frei, fomos à procura de duas mamãs, mãe de dois frades que eu queria conhecer. Pelo caminho os pequenitos olham para mim, curiosos. Quando avançamos ouvimo-los rir. Uns falam de mim como o branquinho e outros chamam-me de chinês. É que, os únicos brancos que por aqui passam, tirando o nosso fr. Gil são os chineses! Encontrámos as mães. Tivemos de esperar porque vinham da Missa. A primeira agradeceu-me muito pelo que fiz pelo filho, obrigou-me a entrar para beber quissangua e queria dar-me almoço. No final perguntou ao frei: “qual é o nome do filho (o meu)?” E eu respondi. Pediu para tirar uma foto comigo para recordação. A outra mamã é mãe de um frei que está há algum tempo em Portugal. Não fala português, fala umbundo, creio. Conseguimos tradução. Olhou séria para mim e, quando lhe mostrei a foto do filho, em que eu estava ao lado, olhou para a foto e olhou para mim e sorriu. Agarrou-se à fotografia e embalou-a, dizendo no dialecto que tinha saudades. Liguei para o filho e puderam falar. No fim, tirámos fotografias para levar para o filho. Perguntará o leitor: então, não há telefones? Não há internet? Não há quem coloque mãe e filho em contacto? Em Portugal, sim, em Angola não.
Visitas feitas regressámos a casa para irmos almoçar com as Irmãs Missionárias do Rosário que nos convidaram, por motivo da minha visita. Fomos bem recebidos, foram as raparigas “vocacionadas” que fizeram o almoço, que estava muito bom.
Tarde livre, de descanso. Olho para a igreja paroquial, que é cópia da paroquial de Santa Comba – aliás, no tempo colonial esta zona chamava-se mesmo Santa Comba e uma aldeia ao lado Vimieiro – e atrás vejo as crianças a brincar: umas a jogar à bola, outras agarradas a um eucalipto que caiu e um grupo de outras crianças num bocado de capim cortado, fofo, onde se divertem deitando-se e lutando na brincadeira.
No final da tarde fomos jantar a casa da família de um frei, que é que é quem me acompanha em toda a viagem. Recebidos com simplicidade mas com muita atenção. O ritual cumpre-se: boas vindas à entrada de casa, lavagem das mãos, com uma das filhas que nos despeja água, ocupar o lugar da presidência, e conviver. Uma menina, chamada Irina, que parece ter alguma deficiência, brica comigo e eu com ela. Já no final do jantar começa a tratar-me por Patele… Descobri que é padre em Umbundo. Grande honra. No final do jantar o dono da casa fez um discurso de agradecimento pela visita, que me considerava um filho. Agradeci com um abraço. Tudo isto me levou aos Actos dos Apóstolos, quando se visitavam as comunidades e as famílias.
O Wako tem o seu encanto. O lugar é calmo, aprazível, quente durante o dia e fresco à noite… fez-me lembrar Feirão. Amanhã parto para a quarta etapa da minha viagem que rápido está a passar: Bié, visitar as nossas monjas dominicanas.

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