De mãos dadas

O meu calvário é um hospital e a minha cruz é uma cama. Os pregos foram trocados por catéteres e tubos, em vez de fel e vinagre dão-me injecções e comprimidos. Não sou um novo Cristo nem o Servo de Deus, mas estamos unidos nas mesmas penas e nas mesmas paixões. As manhãs passam-se em limpezas de maus cheiros, as tardes com visitas que cansam e as noites com barulhos incómodos. Quando se está doente tudo irrita porque a paciência é pouca. E vou olhando quem me visita. E pergunto porquê? Porque é que vieram? Por amizade, talvez, mas as caras que trazem são de inquietação, de tristeza, talvez já se adivinhe que o que aí vem pode não ser bom. E faltam as forças. Há visitas mais assíduas, as do dever, as da amizade, as da família, as do interesse, e há também as não visitas. Sim, há gente que não me visita. Porque não me quer ver assim, porque acha que em breve vou para casa... mas a verdade é que estou aqui há muito tempo. E fecho os olhos. De cansaço. Parece que vejo o meu corpo, os meus pulmões que me doem, a barriga que faz barulho, o ar forçado que me entra pelo nariz... até parece que sinto o sangue correr. E penso nos meus projectos, no que acontece sem mim, no que previa fazer e talvez não consiga. Mas vejo que a vida corre, mesmo sem mim lá. Os trabalhos avançam, as actividades remedeiam-se, tudo se adapta. E ouço uma voz perto e uma mão que me toca. Uma outra visita. As perguntas de rotina que têm as respostas de rotina, silêncios pelo meio, bebo água que não me sabe bem, contam-me novas do mundo - estar num hospital é sair do mundo - dão-me os recados: este manda-lhe um abraço, o outro enviou uma mensagem e aquela ligou a saber se já se sabe alguma coisa. Sim, já se sabe mais que alguma coisa. Eu já sei tudo. E soube sem perguntar. Sinto, pressinto, e o olhar de quem me visita confirma. Mas para quê saber? Estou de mãos dadas: a mão esquerda dei-a aos médicos e a direita a Deus. E os amigos? Esses estão no meu coração.

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