No mínimo comovente

(Neste post decidi não colocar nenhuma imagem. Desculpem. Tenho-a na minha cabeça e não a consigo digitalizar)
Hoje assisti a um episódio - episódio é uma palavra fria para descrever o que vi e senti - no mínimo comovente (foi bem mais que comovente). No hospital onde tenho ido visitar um doente tem aparecido uma amiga dele, com trissomia 21, acompanhada de uma Irmã. Várias vezes já nos cruzámos, sobretudo no corredor, eu a sair e ela a entrar. Mas hoje coincidimos no quarto. Já tinha ouvido histórias desta amizade mas hoje vi que, de facto, os sentimentos unem muito as pessoas. Ela entrou, viu que eu estava e ficou calada. Comportamento típico de quando se está com estranhos. Depois lá quebrei o gelo, pedindo-lhe um beijinho, que deu, e oferecendo-lhe a cadeira onde estava sentado (ela gosta muito de estar sentada). E tudo o resto pareceu um ritual, os dois abstraídos dos que estávamos no quarto. Ela pegou na cadeira, aproximou-a da cadeira do amigo e sentou-se. Olhou para ele, levantou-se, fez-lhe o sinal da cruz na testa, deu-lhe um beijo, ofereceu-lhe uma pagela e voltou a sentar-se. Perguntou-lhe se ele estava melhor. Ele respondeu que estava mais ou menos. E ela, pegando na mão dele e fazendo festas, diz-lhe: coitadinho do senhor padre. Tenho rezado muito por si. Depois disse-lhe que o pijama era muito quente. Ele confirmou. E disse que tinha as mãos secas. Então, a Irmã que a acompanhava, deu-lhe um creme para ela passar nas mãos do amigo. A Irmã olhava para mim como que a dizer: é verdade o que ela diz; e ele olhava para mim como que a dizer-me: vês como ela é minha amiga? E eu, a olhar para isto tudo, sem palavras, só me lembrava do episódio do Evangelho, de Maria, irmã de Lázaro, que tinha comprado um perfume de nardo puro e que com ele ungiu os pés do Senhor. E despedi-me deles. A ela pedi-lhe que tratasse bem do senhor padre. Respondeu-me com a cabeça a dizer que sim.

De regresso a casa, ao folhear um livro de poemas de Alberto Caeiro, que tinham oferecido a este meu amigo doente, li isto, mesmo no final do livro: "O que é preciso é ser-se natural e calmo / Na felicidade ou na infelicidade, / Sentir como quem olha, / Pensar como quem anda, / E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, / E que o poente é belo e é bela a noite que fica... / Assim é e assim seja ...". Fechei o livro e respondi: Ámen.

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