Homem de dores


"Sou contado entre os que descem à sepultura / sou um homem já sem forças". Este é um versículo do salmo 87, que o autor intitulou de «Oração do homem gravemente enfermo».

Os salmos são poemas da vida. Quem os escreveu, escreveu-os a partir da sua vida, dos seus sentimentos, da sua relação com Deus. E, às vezes, só fugindo do real, é que se consegue exprimir o que se sente através de um traço escrito ou desenhado, de um som que ganha tempo e forma numa pauta de música ou num instrumento. Este salmo é triste, ou melhor, é uma oração triste, de um homem muito doente, quase sem forças, porque as poucas que tem gasta-as no grito da oração. Esta foi a oração de um homem, incógnito. Esta foi a oração de um povo que sentiu, como comunidade, a distância de Deus "Porque então me afastais de Vós, Senhor / porque escondeis de mim o vosso rosto?". Mas não deixa de o invocar. Este salmo foi o salmo de Jesus. Num momento igual ao deste autor. Não por doença mas pelo seu sofrimento. Jesus é o homem de dores, sem amigos ao seu lado, mas que, no caminho para a cruz, clama a Deus, o seu único amigo, e lhe estende as mãos.

Este salmo continua hoje a ser rezado. Em todas as sextas-feiras do ano e, de um modo especial, em sexta-feira santa. Lembra-nos e une-nos à paixão de Cristo e faz-nos pensar nas nossas próprias paixões. Talvez, hoje, muitos dos que estão gravemente doentes não conheçam este salmo - talvez se lhes lêssemos eles se reconhecessem nele - mas está a Igreja, cada um de nós, que se une na oração a quantos sofrem e não têm palavras para rezar. Mas os salmos não são estáticos. Cada um de nós os pode adaptar à sua vida, alterar, criar até os seus próprios salmos de louvor, angústia ou de aflição.

Hoje, este salmo lembra-me, em especial, um amigo que sofre. Também escreve salmos, os seus salmos, poemas para rezar. Num deles escreveu assim: "Na esteira do teu nome pus a minha sorte / ao anjo da alegria emprestei minhas asas. Não escondas ao teu servo as fontes de água / vem visitar a angústia do teu servo".

Os salmos cantam a vida. A nossa vida. Assim Deus nos oiça e nos console.

(imagem: Francis Gruber, A paciência e a esperança de Job, 1944)

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