A lua nova


Aproxima-se a Páscoa. A minha Páscoa. Sinto que está perto o meu fim. São muitas as incompreensões e as rejeições. Três anos em que andei pela Judeia e Galileia a anunciar o Reino de Deus e eles a pensar que eu quero ser rei desta terra. Fiz milagres, curei, ressuscitei pessoas, fiz-me próximo e fui censurado por fazer milagres ao sábado, por perdoar os pecados... pensavam eles que eu não podia fazê-lo. Nunca quiseram ver em mim o Filho de Deus. Querem um Messias guerreiro e eu sou um Messias de paz. E agora rezo, nesta última noite, antes de tudo acontecer, para que o Pai que me enviou, me dê força para conseguir suportar tudo. Já mandei reservar a sala para amanhã me despedir dos meus amigos que estiveram sempre comigo... Pedro, homem rude, sempre preocupado comigo, acha que é forte, que se resolve tudo à força... pobre Pedro. Espera-lhe um final parecido ao meu. Tiago, o mais próximo. E a mãe que queria que ele se sentasse à minha direita... temperamento forte, decidido, bastante conhecido por estas bandas... João, o mais novo. Sempre protegido. O mais vivo, destemido, diria até ousado... conversamos muito os dois quando os outros, cansados, adormecem. Filipe, dos primeiros. Galileu como eu. Preocupado com os outros, com medo que falte alguma coisa, como naquele dia com a multidão cheia de fome. Foi ele que me apresentou uns gregos há pouco tempo. Mateus, homem culto, que teve uma integração difícil no grupo por ter sido cobrador de impostos. E Judas, o triste Judas. Sempre preocupado com o dinheiro. Escolhi-o mas desconfio dele. Anda estranho. Calado, ausente... passa-se alguma coisa.
Não sei se perceberam o que lhes tenho dito. Andam tristes. Falam baixo para eu não ouvir. Rezo por eles, para que se mantenham unidos. A minha mãe vem também à festa da Páscoa. Não nos vemos há mais de um ano. Sempre preocupada comigo, se estou bem... preocupações de mãe.
Sinto que não tenho alternativa. Está muita gente na cidade. Há dias, ao entrar aclamaram-me como se fosse um rei. Não adiantava mandá-los calar. Felizmente a guarda não lhes fez mal. Mas sinto que estou a ser controlado, apesar de sair todos os dias da cidade para poder estar mais à vontade. Marta, Maria e Lázaro. Bons amigos. Lázaro está a recuperar bem.
Têm sido anos alegres; não ter onde dormir, ter que trabalhar, gastar as nossas forças ao serviço de Deus. De vez em quando sente-se o cansaço. Outras vezes a solidão. Que sintam sempre a minha presença.
A lua está bonita. Nova. As amendoeiras já rebentaram, as figueiras já espreguiçam as primeiras folhas. Cabritos por todo o lado. Está tudo pronto para a Páscoa. Até eu estou pronto para cumprir a vontade de Deus, seja ela qual for e como for. Deus está comigo. E isso basta-me.

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